Sobre a Meditação

On 05/03/2013 by nalanda

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Ajahn Chah

Ajahn Chah

~ Ven. Ajahn Chah ~
[1] Acalmar a mente quer dizer encontrar o equilíbrio. Se você tentar forçar a mente demasiado ela vai muito longe; se não tentar o suficiente ela não chegará, ela falhará em alcançar o ponto de equilíbrio.Normalmente a mente não está quieta, ela está em movimento constante. Nós devemos dar-lhe força. Tornar o corpo forte e tornar a mente forte não é a mesma coisa. Para fazer o corpo forte precisamos praticar exercício físico, fazê-lo se esforçar, de modo a torná-lo forte, mas tornar a mente forte significa torná-la pacífica, sem que ela pense nisto ou naquilo. Para a maioria de nós, a mente nunca esteve pacífica, ela nunca teve a energia de samādhi [2], então nós devemos dar limites a ela. Sentamo-nos em meditação, e ficamos com ‘aquele que sabe’.Se forçarmos nossa respiração a ser demasiado longa ou curta, não estaremos em equilíbrio, a mente não ficará pacífica. É como quando usamos o pedal de uma máquina de coser. No início praticamos apenas o pedalar para afinarmos a nossa coordenação, mesmo antes de cosermos alguma coisa. Seguir a respiração é algo semelhante. Não notamos quão longa ou curta é uma respiração, quão fraca ou forte, apenas a notamos. Apenas a deixamos ser e seguimos a respiração natural.

Quando ela está em equilíbrio, nós tomamos a nossa respiração como o objeto de meditação. Quando inspiramos, o início está nas narinas, o meio da respiração está no peito e o final no abdômen. Esse é o caminho da respiração. Quando expiramos o início está no abdômen, o meio no peito e o fim nas narinas. Simplesmente note esse percurso, nas narinas, no peito e no abdômen, depois no abdômen, no peito e nas narinas. Nós tomamos nota dessas três etapas de modo a tornar a mente firme, para limitar a atividade mental de modo a que a vigilância e a consciência de si mesmo possam surgir facilmente.

Quando a nossa consciência já se apoia nesses três pontos, deixamo-los ir e concentramos a nossa atenção apenas no entrar e sair do ar no nariz ou no lábio superior, quando o ar entra e sai nesse percurso. Nós não temos que seguir a respiração, agora só temos que estabelecer a vigilância à nossa frente, na ponta do nariz, e notar a respiração nesse ponto, entrar, sair, entrar, sair.

Não há necessidade de pensar em algo especial, somente a concentração nessa simples tarefa por agora, tendo uma contínua presença da mente. Não há mais a fazer, somente respirando para dentro e para fora.

Em breve a mente torna-se pacífica, a respiração refinada. A mente e o corpo tornam-se leves. Esse é o estado apropriado para trabalhar a meditação.

Quando sentados em meditação a mente torna-se refinada, mas em qualquer estado em que estamos nós devemos tomar consciência do que se passa, saber o que se passa. A atividade mental estará lá juntamente com a tranquilidade. Haverá vitakka. Vitakka é a ação de trazer a mente para o objeto de contemplação. Se não existir muita vigilância, não haverá muita vitakka. Então vicāra, a concentração ao redor do objeto surgirá. Variadas impressões mentais podem surgir de tempos a tempos, mas a conscientização de si mesmo é o mais importante  – o que quer que ocorra nós estaremos conscientes dela continuamente. À medida que avançamos estaremos cada vez mais conscientes do estado de nossa meditação, sabendo se a mente está ou não firme. Portanto, concentração e consciência estão ambas presentes.

Ter uma mente calma não quer dizer que nada se passe nela, as impressões mentais surgem. Por exemplo, quando falamos do primeiro nível de absorção, dizemos que ele tem cinco fatores. A par com vitakka e vicāra, pīti (arrebatamento) surge com o objeto de concentração e depois sukha (felicidade). Essas quatro características estão juntas quando a mente repousa na tranquilidade. Elas são como um estado único.

O quinto fator é ekaggatā ou foco-num-só-ponto. Podemos pensar como há um só ponto quando existem os outros fatores também. Isso ocorre porque todos eles se tornam unificados naquela fundação da tranquilidade. Todos juntos são chamados de estado de samādhi. Não são um estado que ocorra todos os dias, são chamados de fatores de absorção. Existem essas cinco características, mas elas não perturbam a tranquilidade básica.  Ocorre vitakka, mas isso não perturba a mente, vicāra, arrebatamento e felicidade surgem, mas não perturbam a mente. A mente está unificada, portanto, nesses fatores. O primeiro nível de absorção é descrito assim.

Não precisamos chamá-lo de primeiro jhāna, segundo jhāna ou terceiro jhāna [3], e por aí adiante, vamos apenas chamar de “mente pacífica”. À medida que a mente fica progressivamente mais calma ela dispensa vitakka e vicāra, deixando apenas arrebatamento e felicidade. Por que é que a mente descarta vitakka e vicāra? Isto é porque se a mente se torna mais refinada, as atividades de vitakka and vicāra são demasiado grosseiras para permanecer. Nesse estágio, à medida que a mente deixa vitakka e vicāra, sentimentos de arrebatamento podem surgir, as lágrimas podem brotar. Mas à medida que samādhi se aprofunda, o arrebatamento também é descartado, deixando apenas felicidade e foco-num-só-ponto, até que por fim, até a felicidade se vai, e a mente atinge o seu maior refinamento. Só existe equanimidade e foco-num-só-ponto e todo o resto foi deixado para trás. A mente fica imóvel.

Uma vez que a mente esteja pacífica isso pode ocorrer. Você não tem que pensar muito sobre isso. Isso ocorre por si só apenas quando os fatores que os causam estão amadurecidos.  Isso é chamado de energia de uma mente pacífica. Nesse estado a mente não está sonolenta; os cinco obstáculos: prazer sensorial, aversão, agitação, sonolência e dúvida, todos eles, partiram.

Mas se a energia mental não é suficientemente forte e a vigilância é fraca, irão ocasionalmente surgir impressões mentais intrusas. A mente está pacífica, mas é como se existissem ‘nuvens’ nessa calma. Não é um estado normal de sonolência, embora algumas impressões se manifestem. Talvez experienciemos um som ou vejamos um cão ou algo assim. Não é claro, mas também não é um sonho. Isso ocorre porque os cinco fatores estão desequilibrados e enfraquecidos.

A mente tende a criar jogos dentro desses níveis de tranquilidade. Imaginações podem surgir quando a mente está nesse estado, por meio de qualquer dos sentidos, e o meditante poderá não conseguir dizer ao certo o que se passa. “Estarei a dormir? Não. É um sonho? Não, não é um sonho…” Essas impressões surgem de uma tranquilidade mediana; mas se a mente está verdadeiramente calma e clara nós não duvidamos das várias impressões mentais ou imagens que possam surgir. Questões como “Terei estado à deriva? Terei adormecido? Terei estado perdido?” não surgirão, pois elas são características de uma mente que ainda tem dúvidas. “Estou acordado ou a dormir?”… Aqui a mente está imprecisa. Essa é a mente que se perde nos humores. É como a lua a ficar escondida atrás de uma nuvem. Ainda podemos ver a lua, mas as nuvens encobrem-na e a vemos difusa. Não é como a lua que emerge por detrás das nuvens, limpa, definida e brilhante.

Quando a mente está pacífica e firmemente estabelecida na vigilância e consciente de si, não haverá dúvida quando aos vários fenômenos encontrados. A mente estará firmemente para lá dos obstáculos. Saberemos claramente tudo o que surgir na mente tal como é. Não duvidaremos que a mente é clara e brilhante. A mente que alcança samādhi é assim.

Algumas pessoas acham difícil entrar em samādhi porque não têm as tendências apropriadas. Existe samādhi, mas não é forte ou firme. No entanto, uma pessoa pode atingir a paz através da sabedoria, contemplando e vendo a verdade das coisas, resolvendo os problemas por essa via. Isso é a utilização da sabedoria em vez da samādhi. Para obter calma na prática, não é necessário estar sentado em meditação, por exemplo. Apenas se pergunte: “Eh, o que é isso?…” e resolva o seu problema no momento. Uma pessoa com sabedoria é assim. Talvez não consiga atingir os elevados níveis de samādhi, embora deva existir algum que seja suficiente para cultivar a sabedoria. É como a diferença entre cultivar arroz e cultivar milho. Dependemos mais do arroz que do milho para a nossa sobrevivência. A nossa prática pode ser assim, dependemos mais da sabedoria para resolver os problemas. Quando vemos a verdade, a paz surge.

As duas vias não são a mesma coisa. Algumas pessoas têm insight e são fortes em sabedoria, mas não têm muito samādhi.   Quando se sentam em meditação não estão muito em paz. Tendem a pensar muito, contemplando isto e aquilo até que, eventualmente, contemplam a felicidade e o sofrimento e veem a verdade deles. Outros inclinam-se mais para samādhi. Quer seja na posição sentada, andando, em pé ou deitados, a iluminação do Dhamma toma lugar. Através da visão, através da renúncia, eles alcançam a paz. Alcançam a paz através do conhecimento da verdade, indo para além da dúvida, porque veem por eles mesmos.

Outras pessoas têm pouca sabadoria, mas a sua concentração é muito forte. Conseguem entrar em samādhi muito rapidamente, mas não têm muita sabedoria e não conseguem ver as suas impurezas, não as conhecem. Não podem resolver os seus problemas.

Mas indiferentemente da abordagem usada devemos afastar os pensamentos errôneos, deixando apenas a visão correta. Devemos livrar-nos da confusão, deixando apenas a paz.

Por ambos os caminhos nós iremos chegar ao mesmo lugar. Existem esses dois lados para praticar, mas essas duas coisas, calma e insight, andam juntas. Elas têm que andar juntas.

Aquilo que vigia os vários fatores que podem surgir na meditação é sati, atenção vigilante. Essa qualidade sati é uma condição que, através da prática, pode ajudar os outros fatores a surgirem. Sati é vida. Sempre que não temos sati, quando estamos desatentos, é como se estivéssemos mortos. Se não tivermos sati, então o nosso discurso e ações são sem significado. Sati é simplesmente contemplação. É uma causa para o surgimento da conscientização de si e sabedoria. Quaisquer virtudes cultivadas serão imperfeitas se sati estiver em falta. Sati é aquilo que permite observar-nos enquanto estamos de pé, andando, sentados ou deitados. Mesmo quando não estamos em samādhi, sati deve estar presente inteiramente.

O que quer que façamos, nós cuidamos disso. Uma sensação de vergonha [4] poderá surgir. Sentimo-nos envergonhados sobre as coisas que não estão corretas. À medida que a vergonha aumenta, o nosso recolhimento também aumenta. Quando o recolhimento aumenta, a negligência desaparece. Mesmo sem estarmos sentados em meditação, esses fatores estarão presentes na mente.

E isso surge pelo cultivo de sati. Desenvolva sati. Essa é a qualidade que observa o trabalho que estamos a fazer no momento presente. Tem valor real. Devemos conhecer a nós mesmos cada momento. Se nos conhecermos desse modo, o correto será distinguido do errado, o caminho ficará claro e a causa de toda a vergonha será dissolvida. A sabedoria surgirá.

Podemos juntar a prática em: moralidade, concentração e sabedoria. Ser recolhido, ser controlado, isso é moralidade. O firme estabelecimento da mente dentro do controle é concentração. O completo conhecimento dentro da atividade em que estamos envolvidos é sabedoria. A prática, em breves palavras, é somente moralidade, concentração e sabedoria, ou noutras palavras, o caminho. Não há outro caminho.

Notas de rodapé:

[1] Uma palestra informal no dialeto do nordeste, retirado de uma fita cassete sem identificação.

[2] Samādhi: é o estado de concentração calma resultante da prática da meditação.

[3] Jhāna: é um estado avançado de concentração ou samādhi, onde a mente se torna absorvida no tema meditativo. É dividido em quatro níveis, sendo cada um progressivamente mais refinado que o anterior.

[4] Vergonha: Esta é a vergonha baseada no conhecimento da causa e efeito, em vez de da culpa emotiva.

 


 

Traduzido por Pedro Cruz para a Comunidade Buddhista Nalanda
com a permissão dos detentores do copyright

© 2013 Edições Nalanda


Nota: Os Ensinamentos de Ajahn Chah” consiste de uma coletânea de ensinamentos dados por um dos mais importantes mestres da tradição das florestas da linhagem Theravada da Thailândia.

 


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One Response to “Sobre a Meditação”

  • Marcelo - Caxias do Sul/RS

    “A prática, em breves palavras, é somente moralidade, concentração e sabedoria” O caminho é o mesmo, seja na meditação sentada ou na vida diária.

    Muito bom!!!

    Abraços!

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