Bhaddā-Kuṇḍalakesā: A asceta hábil na discussão

Por Maggacitta

bhadda

Em Rājagaha, capital de Magadha, vivia uma jovem de boa família chamada Bhaddā, filha de um rico comerciante. Seus pais a mantinham confinada no piso superior de uma mansão de sete andares, pois a jovem era de natureza apaixonada e temiam que o despertar de sua sexualidade lhe causasse problemas. Um dia, Bhaddā ouviu um barulho na rua e quando olhou pela janela viu um criminoso sendo levado à força.

Tratava-se de um jovem homem de posição social que havia se tornado um ladrão. No momento em que Bhaddā fixou seus olhos nele, o amor surgiu em seu coração e a jovem se deitou em sua cama, se negando a comer, a menos que pudesse ter esse homem como esposo. Seus pais tentaram dissuadi-la de tal loucura, mas ela não via outra alternativa. Assim, pois, seu rico pai enviou um generoso suborno ao guardião do prisioneiro pedindo para que ele lhe trouxesse a sua mansão.

O guardião fez o que lhe foi instruído. Substituindo o ladrão por um  vagabundo, o oficial entregou o ladrão para sua filha, para ela se casar com ele, na esperança de que o futuro marido melhorasse o seu caráter graças a esta súbita mudança de sorte. Logo após o casamento, no entanto, o agora marido tornou-se obcecado pelo desejo de apoderar-se das joias de sua esposa. Para atingir seu fim, ele disse a Bhaddā que havia feito uma promessa quando o conduziam ao cadafalso: se ele escapasse da morte faria uma oferenda para uma certa divindade da montanha. O ladrão insistiu que ela pusesse seus mais delicados ornamentos e o acompanhasse até o lugar que frequentava tal divindade: uma encosta no cume de uma montanha muito alta. Quando chegaram à encosta, seu marido ordenou que ela lhe entregasse todas as suas joias. Bhaddā só viu um modo de escapar desse apuro: pediu a seu marido permissão para fazer-lhe uma última homenagem e, enquanto o beijava, o jogou pela encosta, espatifando seu marido contra o chão.

Carregada pelo enorme peso de sua ação, Bhaddā optou por não regressar à sua vida laica, pois os prazeres sensuais e as posses já não tinham qualquer significado para ela. Assim, ela decidiu se tornar uma asceta errante. Primeiro ela entrou para a ordem dos jainistas e, quando se ordenou, teve seus cabelos arrancados pela raíz como penitência especial. Mas seu cabelo cresceu novamente, e desta vez muito enrolados, então posteriormente chamaram-na Kuṇḍalakesā, que significa “cabelos cacheados”.

O ensinamento da seita jainista não a satisfez, e assim virou uma andarilha solitária. Viajando pela Índia visitou muitos mestres espirituais, aprendeu suas doutrinas e adquiriu, em consequência, um conhecimento excelente dos textos religiosos e das filosofias. Bhaddā desenvolveu uma habilidade especial na arte do debate e, em pouco tempo, chegou a ser uma das mais famosas da Índia.

Um dia, Bhaddā chegou a Sāvatthī onde o Venerável Sāriputta residia no Monastério de Jetavana. Ao saber da chegada de Bhaddā, Sāriputta enviou-lhe uma mensagem manifestando seu desejo de debater com ela. Pouco depois, Bhaddā, seguida de um grande número de pessoas, se dirigiu até Jetavana segura da sua vitória. Ela colocou várias perguntas a Sāriputta e ele as respondeu todas. Quando a jovem já não tinha nada mais o que perguntar, chegou a vez de Sāriputta. Sua primeira pergunta afetou profundamente a Bhaddā, a saber: “Que é o único?”

Ela permaneceu calada, incapaz de determinar qual era a intenção do ancião. “Certamente, pensava, não está se referindo a Deus, a Brahma ou ao Infinito, mas então, o que é?” Admitindo sua derrota, Bhaddā quis conhecer a resposta – que era “a nutrição”, porque todos os seres são mantidos por ela -, mas Sāriputta respondeu que somente lhe seria dada se entrasse na Ordem buddhista. O ancião, então, a enviou para as monjas e fez com que ela recebesse a ordenação. Poucos dias depois, Bhaddā havia alcançado o estado de Arahant.

O Apadāna oferece outra perspectiva sobre o despertar de Bhaddā. Depois de deixar a vida laica e entrar na Ordem das monjas jainistas, Bhaddā estudou o sistema filosófico de sua Ordem. Um dia, enquanto estava sentada sozinha pensando sobre a doutrina jainista, um cão se aproximou com uma das patas mutilada e infestada de vermes entre suas garras, a qual colocou bem em frente a ela. Quando Bhaddā viu aquilo, ela sofreu um profundo impacto espiritual. Completamente alterada, perguntou se alguém poderia explicar o significado de tal incidente. Suas investigações a levaram aos monges buddhistas que a conduziram diante do Buddha:

Ele, então, me ensinou o Dhamma,

Os agregados, as bases dos sentidos e os elementos.

O Líder me falou da impureza,

da transitoriedade, do sofrimento e da ausência de auto-existência.

Havendo ouvido dele o Dhamma,

purifiquei a visão do Dhamma.

Quando compreendi o Dhamma verdadeiro,

solicitei os votos de noviça e a ordenação superior.

Feito o pedido, o Líder disse-me, então:

“Vem, Ó Bhaddā!”

Depois de receber a ordenação completa

Observei uma pequena corrente de água.

Diante do fluxo de água que me banhava os pés

Conheci o processo de ascensão e queda.

Depois compreendi que todas as formações

são exatamente iguais em sua natureza.

Nesse mesmo instante minha mente se viu libertada,

Totalmente libertada com o cessar do apego.

Então, o Vitorioso me nomeou primeira

dentre todas as de compreensão rápida.

A última estrofe se refere à ocasião em que o Buddha declarou que Bhaddā era a monja com maior rapidez de compreensão. Esta era uma qualidade que ela compartilhava com o monge Bāhiya, que alcançou o estado de Arahant num instante quando o Buddha lhe disse: “No que é visto, para você só deve haver o que é visto; no que é ouvido, só o ouvido; no que é sentido, só o sentido; no reconhecido, só o reconhecido”. Ambos haviam captado tão rapidamente a verdade mais elevada e lhe haviam penetrado tão profundamente, que em uma fração de segundo ascenderam ao estado de um ser comum ao de um Arahant.

Bhaddā passou a última parte de sua vida viajando pelas terras do norte da Índia, pregando o Dhamma e guiando outros para a mesma meta de libertação que ela havia alcançado:

Livre de enganos viajei durante cinquenta anos

Por Anga e Magadha.

Entre os Vajjis, em Kasi e Kosala,

Me alimentei das oferendas da terra.

Esse benfeitor laico – um homem realmente sábio –

que ofereceu um manto a Bhaddā,

gerou uma abundância de méritos,

pois ela está livres de todas as prisões.


Traduzido pelo Grupo de Tradução do Centro Nalanda


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