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~Ven. Nyanaponika Thera ~

Nyanaponika Thera

Introdução

A vigilância é realmente um poder no sentido pleno da palavra, como é afirmado pelo título deste ensaio? A partir do ponto de vista das atividades ordinárias da vida, não parece ser assim. Deste ângulo, a vigilância ou atenção tem, na realidade, um lugar modesto em meio a tantas outras faculdades mentais aparentemente mais importantes para a busca pela realização dos mais variados desejos. Neste caso, vigilância significa apenas ‘olhar os próprios passos’, de modo que não se de um passo em falso ou se perca uma chance na busca dos próprios objetivos. Apenas no caso de tarefas e habilidades especificas, a vigilância é por vezes cultivada deliberadamente; mas, ainda assim, é considerada uma função subserviente e seu escopo e possibilidades mais amplas não são reconhecidas.

Mesmo voltando-se para a doutrina do Buddha, a partir de uma visão panorâmica das várias listas e classificações de fatores mentais nos quais a vigilância aparece, podemos nos sentir inclinados a considerar essa faculdade somente como ‘uma entre muitas’. Novamente pode-se ter a impressão de que ela ocupa um lugar subordinado e é facilmente superada em importância por outras faculdades.

A vigilância, de fato, possui, se podemos nos expressar deste modo, um caráter despretensioso. Em comparação com ela, fatores mentais tais como devoção, energia, imaginação e inteligência têm certamente características mais coloridas, produzindo um impacto forte e imediato nas pessoas e situações. Suas conquistas são por vezes rápidas e vastas, embora frequentemente inseguras. A vigilância, por outro lado, é de uma natureza discreta. Suas virtudes brilham interiormente, e, na vida comum, muito dos seus méritos são atribuídos a outras faculdades mentais que geralmente recebem todo crédito. É possível que alguém conheça bem a vigilância e a cultive antes que possa apreciar seu valor e sua silenciosa e penetrante influência. A vigilância caminha lenta e deliberadamente, e sua tarefa diária é de uma natureza monótona. A despeito disto, onde ela assenta o pé, não pode ser facilmente desalojada, e passa a dominar o espaço.

Faculdades mentais dessa natureza, como personalidades reais de tipo similar, são frequentemente ignoradas ou menosprezadas. No caso da vigilância foi preciso um gênio como o do Buddha para descobrir o ‘talento oculto’ sob a veste modesta, e desenvolver o vasto poder que jaz em potência nesta semente. Esta é, de fato, a marca de um gênio: perceber e utilizar o poder do aparentemente simples. Aqui, de fato, acontece que ‘aquilo que é pouco se torna muito’. Ocorre uma reavaliação dos valores. Os padrões de grandeza e pequenez mudam. Através da mente suprema do Buddha, a vigilância finalmente foi revelada como o ponto a partir do qual a vasta massa de sofrimento do mundo é removida de sua dupla ancoragem na ignorância e no desejo.

O Buddha falou do poder da vigilância de modo muito enfático:

A vigilância, de fato, é todo-socorredora. (Samyutta, 46:59).

Todas as coisas podem ser controladas pela vigilância. (Anguttara, 8:83).

Além disso, temos aquela expressão grave e solene que abre e conclui o Satipaṭṭhāna Sutta, o Discurso Sobre os Fundamentos da Vigilância:

Este é o único caminho, monges, para a purificação dos seres, para a destruição do sofrimento e da lamentação, para o desaparecimento da dor e angústia, para alcançar o caminho verdadeiro, para a realização de Nibbāna, isto é, os quatro fundamentos da vigilância.

Na vida comum, se dirigimos a vigilância ou atenção para qualquer objeto, ela raramente se mantém por um tempo longo o suficiente para que se realize uma observação cuidadosa e factual. Geralmente, ela é seguida imediatamente por uma reação emocional, pensamento discriminativo, reflexão ou ação intencional. Em uma vida e pensamento governados pelo ensinamento do Buddha, também, a vigilância (sati) está profundamente ligada com a compreensão clara (sampajanna) quanto a intenção correta ou conveniência de uma ação, além de outras considerações. Assim, mais uma vez, ela não é vista em si mesma. Mas, para que possamos ter à mão o poder atual e potencial da vigilância é preciso compreendê-la e deliberadamente cultivá-la em sua forma básica, sem mistura, que chamaremos atenção pura.

Por atenção pura entendemos a clara e objetiva consciência daquilo que efetivamente acontece a nós e em nós, nos momentos sucessivos da percepção. Chamamos de pura, pois se dirige aos fatos puros da percepção, sem reações quer sejam estas do corpo, da fala, ou comentários mentais. Normalmente, este estado puramente receptivo da mente é, como dissemos, uma breve fase do processo de pensamento, da qual geralmente não temos consciência. Mas, no desenvolvimento metódico da vigilância, pretendido com o desabrochar de seus poderes latentes, a atenção pura é mantida por um tempo tão longo quanto a força de concentração da pessoa permite. A atenção pura, portanto, torna-se a chave para a prática meditativa de Satipaṭṭhāna, abrindo as portas da maestria da mente e sua liberação final.

A atenção pura pode ser desenvolvida de duas maneiras: (1) como uma prática meditativa metódica com objetos selecionados; (2) aplicando-a, na medida do possível, aos eventos normais do dia, junto com uma atitude geral de vigilância e compreensão clara. Os detalhes da prática foram descritos em outro lugar, e não é preciso repeti-los aqui.[1]

O objetivo principal deste ensaio é demonstrar e explicar a eficácia deste método, ou seja, mostrar o poder efetivo da vigilância. Particularmente em uma época como a nossa, com sua louvação supersticiosa da atividade externa sem fim, sempre haverá quem pergunte: “Como pode uma atitude passiva da mente, como a atenção pura, levar aos grandes resultados mencionados?” Como resposta, podemos sugerir ao arguidor não confiar nas palavras dos outros, mas submeter as asserções do Buddha ao teste da experiência pessoal. Mas aquele que não conhece o ensinamento do Buddha o suficiente para aceitá-lo como guia confiável, pode hesitar em seguir, sem boas razões, uma prática que precisamente devido a sua simplicidade pode lhe parecer estranha. No que segue, um número de tais boas razões são apresentadas ao escrutínio do leitor. Elas também pretendem ser uma introdução ao espírito geral de Satipaṭṭhāna, bem como servir de indicador quanto às suas perspectivas mais amplas e significativas. Além do mais, espera-se que aqueles que aceitaram o treinamento metódico reconheçam nas observações seguintes certos elementos de sua própria prática, e sejam encorajados a cultivá-los deliberadamente.

 

Quatro Fontes Do Poder Da Atenção Pura

Devemos agora nos ocupar com os quatro aspectos da atenção pura, que são as fontes principais do poder da vigilância. Essas não são as únicas fontes de sua força, mas são as principais responsáveis pela eficácia desse método de desenvolvimento mental. São elas: (1) as funções de ‘ordenar’ e ‘nomear’ exercidas pela atenção pura; (2) seu procedimento não-violento, não coercitivo; (3) a capacidade de parar e desacelerar; (4) a integridade de visão proporcionada pela atenção pura.

1. As Funções de Ordenar e Nomear

Ordenando a casa de nossa mente

Se qualquer um, cuja mente não está harmonizada e controlada graças ao treinamento meditativo metódico, observasse de perto seus pensamentos e atividades cotidianas, se depararia com uma visão desconcertante. Deixando de lado os poucos canais principais de seus pensamentos e atividades intencionais, ele se veria cercado por todos os lados por uma massa caótica de percepções, pensamentos, sentimentos e movimentos casuais do corpo, mostrando uma desordem e confusão que certamente ela não toleraria em sua sala de estar. Contudo, esse é o estado das coisas que tomamos como certas em uma considerável porção de nossa vida desperta e nossa atividade mental normal. Observemos agora os detalhes dessa pintura desordenada.

Em primeiro lugar, encontramos um grande número de impressões casuais dos sentidos, tais como visões e sons, passando constantemente pela mente.

A maior parte delas permanece vaga e fragmentária; algumas se baseiam em percepções incompletas e julgamentos equivocados. A partir dessas fraquezas que lhe são próprias, elas frequentemente formam a base inconsciente para julgamentos e decisões em um nível mais elevado de consciência. De fato, todas essas impressões casuais dos sentidos não podem nem precisam ser objetos de atenção concentrada. Uma pedra na calçada, que casualmente percebemos, só será objeto de nossa atenção caso obstrua nosso progresso ou nos interesse por alguma razão. Ainda assim, se negligenciamos essas impressões casuais muito frequentemente, é possível que tropecemos em muitas pedras ao longo da estrada e também que desprezemos muitas gemas.

Ao lado dessas impressões casuais dos sentidos, existem aquelas percepções, pensamentos, sentimentos e volições mais definidos e significativos que têm uma intima conexão com nossa vida intencional. Aqui também descobrimos que grande porção desses se encontram em estado de total confusão. Centenas de contra-correntes lampejam pela mente, e em toda parte há ‘começos e fins’ de pensamentos inacabados, emoções reprimidas e humores passageiros. Muitos morrem prematuramente. Devido à sua natureza frágil, nossa falta de concentração ou a supressão por impressões novas e mais fortes, eles não se desenvolvem nem persistem. Se observarmos nossa própria mente, perceberemos quão facilmente nossos pensamentos se desviam, quão frequentemente eles se comportam como concorrentes indisciplinados, constantemente interrompendo-se uns aos outros e recusando-se a ouvir os argumentos do outro lado. Novamente, muitas linhas de pensamento permanecem rudimentares ou não se traduzem em vontade e ação, pois falta coragem para encarar as consequências práticas, morais ou intelectuais. Se continuarmos a examinar mais de perto nossas percepções, pensamentos ou julgamentos comuns, temos que admitir que a maior parte delas não é confiável. São apenas produto do hábito, guiados por preconceitos, quer do intelecto, quer da emoção, por nossas preferências e aversões, pela preguiça ou egoísmo, por observações superficiais ou incompletas.

Tal olhar em direção a esses quadrantes, por tão longo tempo negligenciados, representará um choque positivo no observador. Isto o convencerá da necessidade urgente da cultura mental metódica, que parta da fina superfície da mente em direção às vastas regiões nebulosas da consciência que visitamos. O observador tornar-se-á então consciente de que o relativamente pequeno setor da mente que está sob a luz intensa da vontade consciente não se constitui em padrão confiável quanto a força e lucidez interior da consciência em sua totalidade. Também observará que a qualidade da consciência individual não pode ser julgada a partir de alguns resultados ótimos de atividade mental alcançados em períodos breves e intermitentes. Os fatores decisivos na determinação da qualidade da consciência são a autocompreensão e o autocontrole: se aquela consciência obscurecida característica de nossa mente cotidiana e a porção descontrolada da atividade diária tende a aumentar ou diminuir.

É a pequena negligência diária em pensamentos, palavras e ações, ao longo de nossas vidas (e segundo o Buddha ensina, por muitas existências), o principal responsável pelo desleixo e confusão encontrados em nossas mentes. Essa negligência cria a confusão e permite que ela continue. Assim, antigos professores buddhistas dizem: “Negligência produz muita sujeira. Como é numa casa, assim é na mente: se limpamos todos os dias ou a cada dois dias tiramos pouca sujeira, mas se deixarmos a sujeira acumular por muitos anos, teremos um grande monte de lixo” [2].

Os cantos escuros e desordenados da mente são esconderijos para nossos mais perigosos inimigos. De lá eles nos atacam quando estamos inconscientes e, muito frequentemente são bem sucedidos em nos derrotar. Aquele mundo nebuloso povoado por desejos frustrados e ressentimentos reprimidos, vacilações, caprichos e muitas outras figuras sombrias, forma uma base a partir da qual as paixões que surgem em nós – cobiça e desejo, ódio e raiva – encontram poderoso suporte. Além disso, a natureza obscura e obscurecedora desta região é o elemento e solo principal da terceira e mais forte das três raízes prejudiciais (akusala mūla), ignorância ou ilusão.

Tentativas para eliminar os principais obscurecimentos mentais – cobiça, ódio e ilusão – estão fadadas a falhar, na medida em que tais obscurecimentos encontram refúgio e suporte nas regiões escuras e descontroladas da mente; na medida em que o reduzido e complexo tecido daqueles pensamentos e emoções semi-articulados forma a textura básica da mente, na qual poucos fios dourados de pensamento lúcido e nobre estão tecidos. Mas como lidar com esta massa emaranhada e pesada? Usualmente tentamos ignorá-la e permanecemos nas regiões da mente que se contrapõem a essas tentativas, ou seja, ficamos na superfície da mente. Mas o único remédio seguro é encarar o problema de frente – com vigilância. Não é preciso nada difícil, basta adquirir o hábito de direcionar a atenção pura a esses pensamentos rudimentares o mais frequentemente possível. O princípio em ação aqui é o simples fato de que dois pensamentos não podem coexistir ao mesmo tempo: se a luz clara da vigilância está presente, não há lugar para nebulosidades mentais. Quando a vigilância sustentada torna-se sólida o suficiente, será uma matéria de importância comparativamente secundária como a mente lidará então com estes pensamentos, emoções e humores rudimentares. Pode-se simplesmente dispensá-los e substituí-los por pensamentos intencionais, ou pode-se mesmo forçá-los a concluir o que têm a dizer. No segundo caso, eles frequentemente revelarão quão fracos e pobres de fato são, não será difícil, então dispor deles, uma vez forçados a sair à luz. Esse procedimento da atenção pura é muito simples e efetivo; a dificuldade é apenas a persistência na sua aplicação.

Observar uma coisa complexa significa identificar suas partes componentes e assinalar os fios separados que compõem seu intrincado tecido. Caso se aplique isto às correntes complexas da vida mental e prática, automaticamente uma forte influência reguladora tornar-se-á perceptível. Como se envergonhados na presença de um calmo olho observador, o curso dos pensamentos irá proceder de uma maneira menos desordenada e inconstante; ele não será facilmente desviado, e irá assemelhar-se mais e mais com um rio bem regulado.

Durante décadas desta vida atual, e através de milênios de vidas anteriores atravessando o ciclo da existência, cresceu de modo firme, dentro de cada indivíduo, um sistema ou trama cuidadosamente urdido de preconceitos intelectuais e emocionais, de hábitos corporais e mentais que não são questionados quanto a sua posição correta e sua função útil na vida humana. Aqui, mais uma vez, a aplicação da atenção pura amolece o solo duro destas camadas frequentemente antigas da mente, preparando assim o solo para que se plantem as sementes do treinamento mental metódico. A atenção pura identifica e persegue as ameaças daquele tecido de hábitos cuidadosamente entrelaçados. Ela compreende e classifica cuidadosamente as justificações subsequentes dos impulsos apaixonados e os pretensos motivos de nossos preconceitos. Questiona sem medo velhos hábitos desenvolvidos geralmente sem significação, que surgiram sem motivo. Descobre suas raízes, e assim nos ajuda a abolir tudo que é percebido como prejudicial. Em síntese, a atenção pura abre as pequenas fissuras na estrutura aparentemente impenetrável dos processos mentais inquestionáveis. Assim, a espada da sabedoria, empunhada pelo braço forte da prática meditativa constante será capaz de penetrar essas frestas, e finalmente, quebrar a estrutura onde seja necessário. Se as conexões ocultas entre as partes singulares de um todo aparentemente compacto tornam-se inteligíveis, eles deixam de ser inacessíveis.

Quando os fatos e detalhes acerca da natureza condicionada da mente são revelados pela prática meditativa, há uma chance crescente de empreender mudanças fundamentais na mente. Desse modo, não só aqueles hábitos da mente até aqui não-questionados, suas regiões nebulosas bem como seus processos normais, mesmo os aparentemente sólidos e indisputáveis fatos do mundo da matéria – tudo se tornará questionável e perderá muito de sua autoconfiança. Muitas pessoas estão de tal forma impressionadas e intimidadas por aquela suave autoconfiança dos assim chamados ‘fatos sólidos’, que hesitam em empreender qualquer treinamento espiritual, duvidando que possam realizar algo de significativo. A aplicação da atenção pura à tarefa de ordenar e regular a mente trará resultados perceptíveis – resultados que irão desfazer tais dúvidas e encorajar as pessoas a se aprofundarem num caminho espiritual.

A função de ordenação ou regulação da atenção pura, devemos notar, é de fundamental importância para a ‘purificação dos seres’ mencionada pelo Buddha como primeiro objetivo do Satipaṭṭhāna. Essa frase se refere, é claro, à purificação de suas mentes; e aqui o primeiro passo é trazer uma ordem inicial ao funcionamento dos processos mentais. Vimos como isso é feito pela atenção pura. Neste sentido, o comentário ao ‘Discurso Sobre O Fundamento da Vigilância’ explica as palavras ‘para a purificação dos seres’ como segue:

É dito: ‘Manchas mentais obscurecem os seres; clareza mental os purifica’. Essa clareza mental surge pelo caminho da vigilância. (satipaṭṭhāna magga).

Nomear

Dissemos antes que a atenção pura “amarra” ou regula a mente mediante identificação e classificação dos vários filamentos (fios) confusos dos processos mentais. Essa função identificadora, como qualquer outra atividade mental, apresenta-se conectada com uma formulação verbal. Dito de outro modo, a “identificação” ocorre mediante a expressa “nomeação” do respectivo processo mental.

O homem primitivo acreditava que as palavras poderiam exercer um poder mágico: “Coisas que pudessem ser nomeadas perdiam seu poder secreto sobre o homem, o horror do desconhecido. Saber o nome de uma força, um ser ou um objeto significava (para o homem primitivo) o mesmo que dominar tais coisas (exercer maestria sobre elas)” [3]. Essa crença antiga no poder mágico dos nomes também aparece em muitos contos-de-fada e mitos, nos quais o poder de um demônio desaparece devido ao fato de encará-lo corajosamente a pronunciar o seu nome.

Há um elemento de verdade na noção de palavra mágica do homem primitivo, e na prática da atenção pura confirmaremos o poder que existe no ato de nomear. Os demônios obscuros da mente – nossos impulsos apaixonados e pensamentos obscuros – não resistem a simples, porém esclarecedora questão, sobre seus nomes, muito menos o conhecimento destes nomes. Portanto, isto é frequentemente suficiente para diminuir sua força. O olhar calmo e observador da vigilância descobre os demônios em seus esconderijos. A prática de chamá-los pelos seus nomes os coloca em campo aberto, à luz do dia claro da consciência. Nesta posição eles se sentem embaraçados e obrigados a se justificar, embora neste estágio da atenção pura eles ainda não tenham sido submetidos a nenhum questionamento mais profundo além da pergunta pelos seus nomes, sua identidade. Caso forcemos mais enquanto ainda num estágio incipiente, eles serão incapazes de resistir ao escrutínio e desaparecem. Deste modo, uma primeira vitória sobre eles pode ser alcançada, mesmo em um estágio inicial da prática.

O surgimento na mente de pensamentos indesejáveis e ignóbeis, mesmo que sejam transitórios e apenas em parte articulados, tem um efeito desagradável sobre nossa autoestima. Portanto, tais pensamentos são geralmente postos de lado, abandonados sem resistência. É comum também que eles se apresentem camuflados em rótulos mais respeitáveis e prazerosos, que escondem sua verdadeira natureza. Pensamentos dispostos em qualquer destes dois modos irão fortalecer o poder das tendências ignóbeis acumuladas no subconsciente. Além do mais, isso pode enfraquecer a vontade de resistir ao surgimento e domínio das impurezas mentais, e fortalecer a tendência de fugir do problema (não encarar o problema de frente). Entretanto, mediante a aplicação do simples método de nomear ou registrar de modo claro e honesto qualquer pensamento indesejável, estes dois artifícios prejudiciais, ignorância e camuflagem, são eliminados. Deste modo, suas consequências perniciosas para a estrutura do subconsciente e a dispersão que provocam quanto ao esforço mental serão evitados.

Quando pensamentos ignóbeis ou falhas pessoais são chamados por seus nomes corretos, a mente passará a desenvolver uma resistência e mesmo repugnância contra eles. Poderá também ser bem sucedida em a tempo mantê-los em cheque e finalmente eliminá-los. Mesmo que esses meios não mantenham as tendências indesejáveis completamente sob controle de uma vez, irão marcá-las com o impacto da resistência persistente que irá enfraquecê-los onde quer que reapareçam. Dando prosseguimento a nossa personificação, podemos dizer que pensamentos prejudiciais não serão mais os mestres absolutos da situação, e essa repugnância em relação a eles os tornará consideravelmente mais fáceis de lidar. É o poder da vergonha moral (hiri-bala) que foi convocado aqui como um aliado, metodicamente fortalecido por estas simples, porém sutis técnicas psicológicas.

O método de nomear e registrar se estende, é claro, aos pensamentos e impulsos nobres, que serão encorajados e fortalecidos. Sem que seja dada atenção deliberada, tais tendências saudáveis geralmente passam despercebidas e permanecem infecundas. Mas quando aplicamos a eles uma atenção consciente e deliberada, isso estimulará seu crescimento.

Esse é um dos aspectos mais benéficos da vigilância correta, e particularmente da atenção pura, que nos permite utilizar todos os eventos externos, e mesmo eventos mentais internos, para nosso progresso. Mesmo aquilo que não é saudável pode se tornar um ponto de partida para o que é saudável se, através do recurso de nomear ou registrar, isso se torna objeto de conhecimento imparcial.

Em várias passagens do Satipaṭṭhāna Sutta a função de nomear ou simples registrar parece ser indicada mediante a formulação de sentenças utilizando-se do discurso direto. Não há mais de quatro destas sentenças no discurso:

1 – “Quando experimentando uma sensação mental prazerosa, ele sabe: ‘Estou experimentando uma sensação mental prazerosa’”, etc.;

2 – “Ele sabe de um estado luxurioso da mente: ‘A mente é luxuriosa’”, etc.;

3 – “Se o obstáculo do desejo dos sentidos está presente nele, ele sabe: ‘O desejo dos sentidos está presente em mim’”, etc.;

4 – “Se o fator da iluminação da vigilância está presente nele, ele sabe: ‘O fator da iluminação da vigilância está presente em mim’”, etc.

Concluindo esta seção, queremos ressaltar brevemente que as funções de ordenar e nomear os processos mentais é a preparação indispensável para compreendê-los em sua verdadeira natureza, a tarefa do insight (vipassanā). Essas funções, exercitadas pela atenção pura, irão ajudar a acabar com a ilusão de que os processos mentais são compactos (unificados). Elas irão também nos ajudar a discernir a natureza e características específicas dos processos mentais e notar seu momentâneo surgir e desaparecer.

 


[1] Nyanaponika Thera. The Heart of Buddhist Meditation (London: Rider & Co.,1962).

[2] Anagarika B. Govinda. The Psychological Attitude of Early Buddhist Philosophy (London: Rider & Co., 1961).

[3] Comentário do Sutta Nipata v. 334

 


 

Traduzido por Derley Menezes Alves
para o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda
em acordo com os detentores do copyright
© da tradução, 2006 Edições Nalanda


Nota: “O Poder da Vigilância
é uma investigação acerca do objetivo da atenção pura e das principais fontes de sua força. Ele consiste de um ensaio a respeito de um dos conceitos fundamentais na prática da meditação buddhista, escrito pelo venerável Nyanaponika Thera, um dos primeitos monges ocidentais da era contemporânea


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4 COMMENTS

  1. Parabéns pela publicação. Eu li este ensaio num livreto de 56 páginas, se não me engano, na biblioteca do Nalandarama no retiro de Jun/12. Que coincidência (para quem acredita nela). No google book tem o livro: Nyanaponika Thera. The Heart of Buddhist Meditation (London: Rider & Co.,1962). Vou estudá-lo, abraços,

  2. […] Um outro aspecto importante da vigilância é a dimensão da atenção simples. Quanto mais nosso cultivo da vigilância se fortalece conseguimos nos manter protegidos de estados mentais aflitivos, de reações automáticas que podem trazer prejuízo e sofrimento para nós e para os outros. Analayo chama este aspecto de atenção simples ou “bare attention”, mesma expressão utilizada por Nyanaponika Thera no ensaio o poder da vigilância, traduzido por mim e disponível no site do nalanda no link http://nalanda.org.br/ensinamentos/o-poder-da-vigilancia-1a-parte. […]

  3. […] Um outro aspecto importante da vigilância é a dimensão da atenção simples. Quanto mais nosso cultivo da vigilância se fortalece conseguimos nos manter protegidos de estados mentais aflitivos, de reações automáticas que podem trazer prejuízo e sofrimento para nós e para os outros. Analayo chama este aspecto de atenção simples ou “bare attention”, mesma expressão utilizada por Nyanaponika Thera no ensaio o poder da vigilância, traduzido por mim e disponível no site do nalanda no link http://nalanda.org.br/ensinamentos/o-poder-da-vigilancia-1a-parte. […]

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