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~ Ven. Ottama Sayadaw ~

Parte 2

O paralelo gastronômico da Vovó Mary

Imaginem que vocês estão vivendo com sua avó bem velhinha. Ela cozinha para você. Por causa da idade ela não pode sair para fazer compras e então ela depende das provisões que você traz para casa todos os dias. Mas ela tem um freezer gigante na cozinha. No geral, Vovó Mary é bastante confiável, mas você tem alguns sérios problemas com ela: ela é surda, e é totalmente desinteressada por qualquer tipo de comunicação. Por isso, ela ignora os seus desejos gastronômicos. Ela cozinha em seu próprio estilo, seguindo suas receitas próprias.

A única forma que vocês podem garantir uma boa dieta é trazendo para casa comida de boa qualidade, sua avó irá preparar ótimas refeições se vocês fornecerem bons alimentos. Não seria tolice esperar deliciosas refeições se os únicos mantimentos que vocês levam para casa, dia após dia, são salsichas podres, um saco de pimentas e ovos mal cheirosos? Em nossa analogia, se vocês não comerem a refeição, vocês podem levantar e ir a um restaurante. Em nossa vida, entretanto, quando nosso kamma passado traz o seu fruto, nós temos que engolir tudo o que vem.

Essas analogias são apenas diferentes ilustrações para a relação entre kamma e os seus resultados. Na realidade, a lei do kamma não funciona de forma rígida e mecânica. O desenvolvimento do kamma é um processo muito dinâmico, e a sua complexidade confunde todas as tentativas de o interpretar como uma gigantesca peça de relojoaria.

Os acontecimentos das nossas vidas não ocorrem acidental ou aleatoriamente. Eventos têm sua causa, ou melhor, uma variedade de causas. Todavia, seria um engano pensar que todas as coisas que nos acontecem ocorrem unicamente pela operação do kamma. O Buddhismo Theravāda considera o ensinamento do kamma como apenas um dos aspectos da complexa e multifacetada lei da causa e efeito. O Abhidhamma enumera vinte e quatro modos de relações condicionais, onde dentre elas kamma e vipāka são apenas dois. Eles são, entretanto, dois elementos muito importantes, pois seu funcionamento é o grande responsável pela quota de felicidade e tristeza em nossas vidas.

O sistema de vinte e quatro relações condicionais se destina a cobrir todos os acontecimentos nos domínios da mente e matéria. Podemos dizer que o ensinamento de kamma-vipāka, juntamente com as seis raízes (hetu-paccava) [1], é sua parte ética. Eles se referem às dicotomias básicas de “bom e mau”, “positivo e negativo”, “benéfico e prejudicial”, “certo e errado”, “meritório e demeritório”, mas também indiretamente concerne aos pares “sábio e insensato”, “hábil e inábil”, “libertar e amarrar”, “íntegro e censurável”, “virtuoso e não-virtuoso”, etc.

[1] As seis raízes são cobiça, ódio, ilusão, não cobiça, não ódio e não ilusão.

A Lacuna

Vocês sabem por que algumas ações são boas e outras más? Não estou brincando! Por favor, me digam: para vocês, pessoalmente, por que o bem é bom e o mal é mau? Vocês podem pensar que isso é catecismo para crianças, mas eu frequentemente fico surpreso com quantas pessoas estão perplexas a respeito dessa questão tão elementar.

Nós podemos citar algumas máximas éticas ou conciliar algumas abstrações filosóficas mas, no final, geralmente temos de admitir que simplesmente não sabemos. Para dar um exemplo claro dessa lacuna fundamental na orientação ética, deixe-me dizer que eu já tinha mais de trinta anos quando pela primeira vez ficou claro para mim que: “O bem é bom porque ele leva à felicidade e liberdade do coração. O mal é mau porque leva ao sofrimento, miséria e aprisionamento”. Simples, não é? Mas não é assim tão fácil. Essa ética não é uma questão de opinião ou filosofia.

Se nos tornarmos sensíveis o suficiente, seremos capazes de ver como a qualidade da nossa mente muda com cada ação mental, verbal ou corporal, especialmente quando tomamos uma decisão importante. Mas isso é só uma leve validação do princípio acima, uma antecipação de um insight mais profundo que pode emergir mais tarde como resultado da prática. Para percebermos plenamente o funcionamento desse princípio, nós precisamos considerar o renascimento, ver a nossa existência como um processo não limitado por um particular tempo de vida, mas como continuando indefinidamente em direção ao futuro. A esse nível o princípio é idêntico à lei do kamma em si.

De fato, este é o significado básico da lei do kamma. O Buddha chama de “saudáveis” todas as volições e ações que, no final das contas, resultam em diferentes tipos de felicidade e de liberdade: felicidade sensual, a felicidade do nível de consciência material-sutil, a refinada bem-aventurança das absorções imateriais. Os kammas saudáveis podem até nos ajudar a compreender a felicidade sublime, a paz e a liberdade do Nibbāna. Ele chama de “não saudáveis” todas as volições e ações que, em última análise, produzem frutos indesejáveis – frustração, sofrimento e servidão.

Exemplos imaginários

Um vizinho corre para uma casa a arder para salvar uma menina, mas sufoca com a fumaça e morre. A morte é como o virar de uma página de um grande dicionário. Este homem continua algures em saṁsāra, provavelmente em condições privilegiadas. Mesmo que o evento da morte tenha ativado algum kamma menos agradável e que ele tenha renascido numa condição miserável, provavelmente o seu período de vida aí não será muito longo. Inevitavelmente, o bom kamma gerado pela sua ação trará frutos e levará a uma leveza e felicidade duradoura.

O Sr. A sabe de um súbito problema financeiro na família do seu amigo Sr. B. O Sr. A pretende ajudar o Sr. B com um donativo, mas oferece-lhe o dinheiro de um modo pouco hábil. O Sr. B sente-se ofendido perante a sua família e a amizade termina.

Compaixão sem sabedoria tem frequentemente consequências indesejáveis. Contudo, a qualidade de uma ação depende da intenção. O Sr. A sente-se infeliz, mas criou kamma saudável. Além disso, aprendeu uma lição: se desejamos ajudar alguém, devemos ser extremamente sensíveis e cuidadosos. Os problemas financeiros do Sr. B parecem ter uma profunda causa kâmmica. Ele não aceitou a ajuda que lhe foi oferecida e ainda ficou zangado com o seu suposto benfeitor. Ele pode estar a experienciar o fruto de algum ato de avareza anterior, um fruto ainda não esgotado.

Um empresário doa uma larga soma de dinheiro ao hospital psiquiátrico local. Um dos motivos que o levam a fazê-lo é ser classificado num escalão mais baixo de rendimentos. O município aprecia o seu gesto e o seu status social aumenta. Graças a este truque engenhoso, no ano seguinte consegue um imposto mais baixo sobre os rendimentos.

Isto pode ser um exemplo de kamma mesclado, ou seja, a caridade combinada com a avidez e a astúcia. O resultado de tal kamma será também uma mescla. A ascensão social não possui, neste caso, qualquer ligação de kamma quanto a aspectos financeiros, sendo provavelmente o resultado de um kamma anterior; possivelmente, num passado distante, este homem tenha se regozijado com o sucesso de seus colegas.

Com relação aos efeitos dos diferentes tipos de doações, a intensidade da salubridade depende não tanto da necessidade do recebedor, mas de três fatores envolvidos no ato: a pureza do doador, a pureza do recebedor e o valor da doação (AN VI, 37). Esta regra se aplica a todos os tipos de serviço e suporte, quando oferecemos nosso tempo, habilidades, aconselhamento, assistência, proteção, etc.

Ao longo da história, civilizações e culturas têm adotado diferentes códigos morais, padrões de comportamento e escalas de valores éticos. A lei do kamma não pertence a essa categoria. Aqui não se discute nem as convenções da vida social, nem a correção de um código particular de justiça. A lei do kamma espelha a realidade em si, suas operações são percebidas pelo conhecimento direto do funcionamento da realidade. Os mecanismos do kamma podem não corresponder às nossas opiniões sobre o certo e o errado ou corresponder aos nossos sentimentos de justiça. Eles são, antes, a expressão de algo mais profundo: as leis universais reais, subjacentes à existência saṁsārica.

O Buddha entendeu que todos procuram a felicidade, mas ele viu que a maioria das pessoas faz coisas que levam inevitavelmente ao sofrimento e tormento (veja DN 20.2). Esta foi uma razão pela qual ele finalmente decidiu ensinar. Enquanto a liberação definitiva em relação ao sofrimento é o objetivo principal do seu ensinamento, o Buddha também assinalou o que é benéfico e o que é prejudicial no contexto da vida comum. Seguindo sua orientação, praticamente qualquer um pode evitar atividades e atitudes mentais que levam ao sofrimento e angústia.

Para uma orientação fácil, encontramos nas escrituras diferentes enumerações de ações certas e erradas. A lista mais comum de atos errados se refere aos dez “cursos de ação” perniciosos:

Pelo corpo: (1) matar, (2) roubar, (3) má conduta sexual.
Pela fala: (4) mentir, (5) caluniar, (6) falar rudemente, (7) conversa fiada ou fofoca
Pela mente: (8) cobiça, (9) má-vontade, (10) concepções errôneas.

Há duas listas convencionais de ações benéficas. A primeira é exatamente o oposto das dez ações erradas. Dessa lista, se derivam os cinco preceitos, o código moral básico para laicos: abstinência de matar, de roubar, de má conduta sexual, de mentir e do uso de intoxicantes. Essas regras simples para o viver apropriado protegem o principiante das formas mais grosseiras do kamma pernicioso.

Outro conjunto de orientações para uma conduta correta é o das “dez bases dos atos meritórios”:

(1) generosidade, (2) moralidade, (3) cultivo da mente através da meditação, (4) reverência, (5) serviço, (6) compartilhar com outros nossos atos meritórios, (7) se alegrar nos méritos dos outros, (8) aprender o Dhamma, (9) ensinar o Dhamma, (10) endireitar nossa visão.

Se vocês têm dificuldade em aceitar os padrões estabelecidos de “bom” e “mau” das escrituras, como um exercício vocês podem tentar descobrir por si mesmos o que é “bom” e “mau”. Chamem de “boas” aquelas ações que vocês encontrarem que levam à pura felicidade e liberdade do coração, e de “más” aquelas ações que levam à escravidão e sofrimento. Esse exercício não vai funcionar com pessoas tolas, mas oferece muito discernimento para os que são coerentes e sensíveis. Ele vai ajudar a desenvolver a sabedoria e a humildade.

É de nosso interesse pessoal entender como a natureza funciona. Se minhas próprias tentativas de descobrir os princípios reais e as relações que governam a vida falham, e eu sou sábio o suficiente para perceber isso, provavelmente ficarei mais inclinado a colocar minha confiança no insight de alguém que pode ver tudo isso de modo muito mais claro do que eu.

E aqui está a definição precisa do que é bom e o que é ruim: Se a vontade por trás de uma ação é regida pela cobiça, a aversão ou ilusão (lobha, dosa, moha), o kamma é prejudicial, o que significa que ele trará resultados insatisfatórios, indesejáveis, desagradáveis. Por outro lado, se a nossa vontade é governada por não ganância (altruísmo, generosidade), não ódio (bondade, amizade), e não ilusão (claro entendimento, discernimento, sabedoria), então a força kâmmica, será saudável, trazendo felicidade e outros resultados desejáveis.

O passageiro maltrapilho

Num ônibus alguém roubou a minha carteira da sacola. Tal pode ter ocorrido como o resultado de um roubo que eu cometi no passado. Talvez eu tenha sido um assaltante de carteiras. O antigo kamma pode ter feito surgir este incidente agora. Posso reagir a este incidente de várias maneiras:

(a) eu me recordo do homem de má aparência ao meu lado; a raiva e ódio vão surgir na minha mente e grito “Ele me roubou!”. Isto é kamma negativo baseado na minha ganância e ódio. Quando este kamma amadurece, trará de volta um resultado desagradável numa intensidade proporcional à ganância, ódio e ilusão no instante em que se gerou o kamma.

Outro tipo de resposta é a seguinte:

(b) Lembro-me do homem indigente com o pensamento: “Ele poderia ter tomado. Algumas pessoas são muito pobres. Os $20 não podem ajudá-lo por muito tempo. Se eu o ver novamente, vou informá-lo sobre o programa de ajuda social. Ele pode não saber sobre ele”. Nesse caso eu criei kamma saudável baseado no não apego, cuidado e amizade.

Nós podemos certamente sentir que a maneira como lidamos com as situações afeta a qualidade das nossas vidas. Se reagirmos sempre cegamente, como no primeiro exemplo, as nossas mentes ficarão sem frescura, egoístas, cruéis; enquanto que se desenvolvermos bondade, abertura, benevolência, equanimidade, como no segundo exemplo, as nossas vidas ficarão claras, brilhantes e cheias de significado.

Há ainda um terceiro tipo de resposta – aquele de um ser iluminado, totalmente livre:

(c) uma mente totalmente aberta, não reativa, equânime, de perfeita consciência da situação, algumas vezes seguida de uma resposta apropriada baseada na sabedoria e compaixão, algumas vezes sem qualquer reação.

Este tipo de liberdade, distanciamento, amplitude da mente e sábia equanimidade é difícil de imitar. No segundo exemplo podemos ver a equanimidade do equilíbrio “celestial”, que ainda cria um tipo de kamma benéfico. O último exemplo representa a mais alta equanimidade, nascida da total pureza e distanciamento. A diferença entre (b) e (c) é sutil e difícil de distinguir na aparência. Embora as ações dos arahants possam ser duras algumas vezes, suas mentes estão sempre “sabiamente equilibradas”, livres de todas as negatividades e emoções turbulentas. Por causa de sua ausência de self [eu], respostas impessoais estarão em harmonia com a sabedoria e sua própria natureza interior, eles não produzirão o tipo de kamma comum.

 


 

Traduzido pelo Grupo de Tradução do Centro Nalanda
em acordo com o Autor

© 2011 Edições Nalanda


Nota: Ensinamentos sobre o Kamma” consiste de um ensaio moderno sobre a doutrina do kamma (skr. karma, ação) no Buddhismo, escrito pelo venerável Ashin Ottama Sayadaw. Ashin Ottama é monge buddhista e professor na linhagem de Mahasi Sayadaw, abade do Mosteiro Bodhipala na Suíça e atualmente vivendo na Itália. Estará em fevereiro de 2012 no Brasil a convite da Comunidade Nalanda.

 


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