O Papel da Riqueza no Buddhismo

Phra Payutto

~ por Ven. Ajahn Payutto ~

Embora o Buddhismo seja caracterizado como uma religião ascética, na verdade o ascetismo foi vivenciado pelo Buddha e rejeitado por ele antes de alcançar a iluminação. Do ponto de vista do Buddhismo, o significado da palavra “ascetismo” é ambíguo e não deveria ser usado sem qualificação.

O termo “pobreza” também é capcioso. Os conceitos buddhistas conhecidos estão mais para contentamento (santutthi) ou desejos limitados (appicchata). Pobreza (dadiddiya) não é elogiada ou encorajada no Buddhismo. Como o Buddha disse: “Para chefes de família neste mundo, pobreza é sofrimento” [A.III.350]; “Pobreza e dívida são lamentáveis no mundo” [A.III.352].

Na verdade, a posse de riquezas por certas pessoas é frequentemente elogiada e incentivada no Cânone Pāli, indicando que a riqueza é algo a ser procurado. Dentre os discípulos laicos do Buddha, os mais conhecidos, os mais úteis e os mais frequentemente elogiados eram, em grande parte, pessoas ricas, como Anathapindika.

Mesmo para os monges, dos quais não se espera que busquem riqueza, ser frequentemente destinatário de ofertas era algo considerado como de grande qualidade. O monge Sivali, por exemplo, foi elogiado pelo Buddha como o mais importante daqueles “que são captadores de oferendas”. No entanto, essas observações devem ser qualificadas.

O tema principal das Escrituras é que não é a riqueza, como tal, que é elogiada ou criticada, mas a forma como é adquirida e utilizada. Para os monges, como dito acima, não é a aquisição, como tal, que é criticada, nem a pobreza que é elogiada. Qualidades condenáveis ​​são a sede de ganhos, avareza, apego, o agarrar, apego ao ganho e a acumulação de riqueza. Aquisição é aceitável caso seja um auxílio para a prática do nobre caminho ou se beneficia membros da Ordem.

Por outro lado, isso não significa que os monges sejam incentivados a possuir bens. Embora permitido pelo Vinaya, ou código monástico, o ganho é justificável se os bens pertencerem à comunidade monástica, mas se um monge é rico em bens pessoais, é evidência da sua ganância e apego e ele não pode ser visto como em conformidade com os princípios buddhistas. A prática correta para os monges é nada possuir, exceto os requisitos básicos da vida. Aqui a questão não é de ser rico ou pobre, mas de ter alguns cuidados pessoais, fácil mobilidade, espírito de contentamento e poucos desejos, e, como a vida do monge é dependente do apoio material de outras pessoas, ser de apoio fácil. Com alta mobilidade e quase sem cuidados pessoais, os monges são capazes de dedicar a maior parte do seu tempo e energia ao seu trabalho, seja para o aperfeiçoamento individual ou para o bem social.

“O monge está contente com roupas suficientes para proteger o corpo e com comida doada suficiente para suas necessidades corporais. Onde quer que ele possa ir, ele leva apenas isso com ele, assim como um pássaro em voo, para onde quer que possa voar, leva apenas a carga de suas asas” [A.II.209].

Assim, são o contentamento e a parcimônia dos desejos, acompanhados pelo compromisso com o desenvolvimento do bem e o abandono do mal, que são recomendados. Mesmo o contentamento e a parcimônia de desejos devem ser qualificados, ou seja, eles devem ser acompanhados por esforço e diligência, não por complacência e ociosidade. O monge contenta a si próprio com o que quer que ele obtenha, de modo que ele possa devotar mais do seu tempo e energia para o desenvolvimento pessoal e o bem-estar dos outros. Em outras palavras, embora possa ser bom para um monge ganhar muitas posses, não é bom possuí-las ou acumulá-las. É bom ganhar muito e dar muito.

“Além disso, monges, ele se contenta com qualquer necessidade, seja de roupas, comida recebida, abrigo ou medicamentos, que ele obtém. Além disso, os monges estão sempre empenhando esforços para eliminar qualidades negativas, progredindo de forma determinada e vigorosa em coisas boas, nunca fugindo de suas obrigações” [D.III.226, 296; A.V.23].

*  *  *

“Uma é a estrada que leva à riqueza, outra é a estrada que leva ao Nibbāna. Se um monge, discípulo do Buddha, aprender isso, ele não vai ansiar por honra, mas irá promover a solidão” [Dh.75].

Para os laicos, como mencionado acima, não há nenhuma circunstância em que a pobreza seja incentivada. Pelo contrário, muitas passagens das escrituras exortam os laicos a buscar e acumular riqueza por meios legítimos. Entre os bons resultados de kamma bom, um deles é ser rico. O que é condenado com relação a riqueza é ganhá-la de forma desonesta. Digno de censura também é aquele que, tendo ganhado riqueza, torna-se escravizado por ela e cria o sofrimento como resultado disso. Não menos mal e censurável do que o ganho ilegal das riquezas é acumular riquezas através de mesquinharia, e não gastá-la para o benefício e bem-estar de si mesmo, dos seus familiares ou outras pessoas. Mais uma vez, esbanjar riqueza tolamente ou através da indulgência, ou usá-la para causar sofrimento a outras pessoas, também é criticado:

“Monges, se as pessoas soubessem, como eu sei, os frutos do compartilhar, elas não desfrutariam do seu uso sem compartilhá-los, e nem a mancha da avareza atormentaria o coração. Mesmo se fosse o último pedaço, sua última porção de comida, elas não desfrutariam disso sem compartilhar, se houvesse alguém com quem dividir”. [It.18]

Pessoas ricas boas e louváveis são aquelas que buscam a riqueza de formas justas e usam-na para o bem e a felicidade de si mesmos e dos outros. Assim, muitos dos discípulos laicos do Buddha, sendo ricos, generosamente devotaram muito ou a maior parte de sua riqueza para dar suporte à sangha e para aliviar a pobreza e o sofrimento. Por exemplo, é dito no Comentário do Dhammapada que o milionário Anathapindika gastava uma grande quantia de dinheiro todos os dias para alimentar centenas de monges e também centenas de pobres. É claro que, em uma sociedade ideal, sob um governante capaz e justo, ou sob uma administração eficaz e justa, não haveria mais pobres, quando todas as pessoas fossem ao menos autossuficientes, e monges seriam a única comunidade em especial que seria sustentada pelo excedente material da sociedade laica.

Assim, ao contrário da imagem popular do Buddhismo como uma religião de austeridade, os ensinamentos buddhistas não reconhecem o papel do conforto material na criação de felicidade. No entanto, o Buddhismo visa o desenvolvimento do potencial humano e, a esse respeito, a riqueza material é considerada secundária. A atividade econômica lucrativa que é conduzida para o bem-estar, pode contribuir para o desenvolvimento humano – a acumulação de riqueza por si só não pode.

Meio de vida correto

Meio de vida correto é um dos fatores do Nobre Caminho Óctuplo. Ele não é determinado pela quantidade de riqueza material que produz, mas sim pelo bem-estar que ele causa. Muitos meios de vida que produzem um excedente de riqueza simplesmente atendem a desejos em vez de atender qualquer necessidade real.

Para o indivíduo, o objetivo de vida é obter as quatro necessidades ou requisitos da existência humana: alimento, vestuário, abrigo e remédios. De novo, a obtenção desses quatro requisitos, seja em quantidade suficiente ou em excesso, não é o objetivo final. Os quatro requisitos são simplesmente uma base sobre a qual os esforços para realizar os objetivos mais elevados podem ser apoiados.

Algumas pessoas se contentam com poucas posses e só precisam de um mínimo para dedicarem suas energias ao desenvolvimento mental e espiritual. Outros não conseguem viver felizes com uma quantidade tão pequena, pois são mais dependentes de bens materiais. Tanto quanto sua subsistência não explorar os outros, no entanto, o Buddhismo não condena sua riqueza. Além disso, pessoas que são caridosamente inclinadas podem usar sua riqueza de formas benéficas para a sociedade como um todo.

Em oposição aos valores urbanos contemporâneos, o Buddhismo não mede o valor de uma pessoa ou nação pela riqueza material. Tampouco vai para o extremo oposto, como fazem pensadores marxistas, e condena a acumulação de riqueza como um mal em si mesmo. Ao invés disso, o Buddhismo julga o valor ético da riqueza pelos meios com que ela foi obtida e pelos usos que a ela são dados.

Avareza

A obtenção de riqueza de modo imoral e seu uso para fins prejudiciais são dois males associados com a riqueza. A terceira é a acumulação de riqueza – ou recusar-se a compartilhá-la ou colocá-la em bom uso. Nesta história, o Buddha relata os males da avareza:

Certa vez, o rei Pasenadi de Kosala visitou o Buddha. O rei disse ao Buddha que um rico velho avarento havia morrido recentemente não deixando herdeiro para sua enorme fortuna, e o rei teve que supervisionar a transferência da riqueza para o tesouro do reino.

O rei Pasenadi descreveu a porção da fortuna que teria de carretear: oito milhões de moedas em ouro, já para não mencionar as de prata, que eram incontáveis. E, disse ele, quando o velho avarento era vivo, alimentava-se de restos de arroz e vinagre, vestia-se com três farrapos rudes cosidos juntos, usava uma velha carroça toda desfeita como meio de transporte e abrigava-se com uma sombrinha feita de folhas.

O Buddha comentou:

“É assim que funciona, Vossa Majestade. O tolo, obtendo o que era desejado, não mantém em conforto nem a si nem a seus dependentes, seu pai e sua mãe, mulher e filhos, seus servos e empregados, seus amigos e associados. Ele não faz oferendas aos mendicantes religiosos, que são de grande fruto e que conduzem ao bem estar mental, alegria e paraíso. Essa riqueza não consumida e não usada por ele é confiscada pelos reis, roubada pelos ladrões, queimada pelo fogo, varrida pelas enchentes ou herdada por parentes que não são favoritos. Sua riqueza, acumulada e não usada, desaparece sem propósito. Sua riqueza é como uma piscina na floresta, limpa, fresca e fria, com fácil acesso, debaixo da sombra, numa floresta de ogros. Ninguém pode beber, nadar ou fazer uso daquela água.

“Assim como para o homem sábio, tendo obtido bons meios, ele se sustenta, e ao pai e à mãe, à esposa e aos filhos, a seus servos e empregados, e aos seus amigos e associados confortável e suficientemente. Ele faz as oferendas, que serão de ótimo fruto e que são propícias ao bem-estar mental, à felicidade e bem-aventurança, aos religiosos mendicantes. A riqueza que ele tem, justamente empregada não é confiscada pelos reis, os ladrões não podem roubá-la, o fogo não pode queimá-la, as enchentes não podem carregá-la, parentes mal quistos não podem dela se apropriar. A riqueza corretamente utilizada por ele é posta em uso, não desaparece em vão. Sua riqueza é como uma lagoa na floresta próxima de uma aldeia ou cidade, com pura e límpida água fresca, boa sombra e de fácil acesso. As pessoas podem livremente beber da água, banhar-se nela ou usá-la como quiserem.

“A pessoa má, obtendo riqueza, nem faz uso dela nem permite que outros o façam, como um poço em uma floresta assombrada – a água não pode ser bebida e ninguém ousa usá-la. O homem sábio, obtendo riqueza, tanto faz uso dela quanto a coloca em uso. Tal pessoa é exemplar, ela dá apoio a seus parentes e é irrepreensível. Ela alcança os céus” [S.I.89-91].

*  *  *

“Vossa Majestade, aquelas pessoas que, tendo obtido grande riqueza, não são intoxicadas por ela, não são levadas à negligência nem à indulgência irresponsável que coloca outros em perigo, são muito raras neste mundo. Aquelas que, tendo obtido muita riqueza, estão intoxicadas por ela, são levadas à negligência e à indulgência irresponsável que coloca outros em perigos, são realmente em um número muito maior”.

Em outro lugar nas Escrituras, a pessoa mesquinha é comparada a um pássaro chamado “mayhaka”, que vive nas figueiras. Enquanto todos os outros pássaros revoam para a árvore para comer suas frutas, tudo o que os mayhaka fazem é ficar lá dizendo a todos “mayham, mayham” (“meu, meu”). [J.III.299-302]

Resumindo, ações prejudiciais associadas com riqueza podem aparecer de três formas: pela procura de riqueza por meios desonestos ou não éticos; pelo acúmulo de riqueza pelo simples fato de acumulá-la; e por usar a riqueza de maneiras prejudiciais.

Conhecendo as Limitações da Riqueza

As pessoas ricas que tem virtude usam-na para realizar bons trabalhos para elas mesmos e para os outros, mas o verdadeiro sábio também compreende que a riqueza por si só não o pode libertar. Nas passagens abaixo, o Buddha expõe sobre as limitações da riqueza e exorta a que nos esforcemos para aquilo que é superior à posses materiais.

“Ações, conhecimento, qualidades, moralidade e uma vida ideal:  são estas as bitolas da pureza de um ser, não a riqueza ou o nome”.

*  *  *

“Eu vejo os seres neste mundo que são ricos: em vez de compartilhar sua riqueza ao redor, tornam-se escravizados por ela, pois eles a acumulam e demandam cada vez mais por gratificação sensorial.

“Reis conquistam terras inteiras, reinando sobre terras que se estendem de oceano a oceano. Ainda assim, eles não se contentam somente com esta costa – eles querem o outro lado também. Tanto os reis como as pessoas comuns morrem em meio ao desejo, nunca atingindo um fim em relação a estes desejos e ânsias. Com o desejo insatisfeito, eles abandonam o corpo. Não há satisfação dos desejos pelos objetos sensoriais neste mundo

“Parentes soltam o cabelo e se entristecem com a morte de pessoas queridas, lamentando: ‘Oh, nossos entes queridos nos deixaram’. Eles envolvem o corpo com tecido, o colocam na pira funerária e o cremam; os agentes funerários pegam bastões e cutucam o corpo até que ele se queima por completo. Tudo o que os mortos conseguem levar consigo é um simples pedaço de pano; toda a riqueza é deixada para trás.

“Quando é hora de morrer, ninguém, parente ou amigo, pode evitar o inevitável​​. As posses são levadas pelos herdeiros enquanto o falecido passa de acordo com seu kamma. Quando é hora de morrer, não é possível levar nada com você, nem filhos, esposa (ou marido), riqueza ou propriedade. Longevidade não pode ser obtida através da riqueza, e a velhice não pode ser comprada com ela. Os sábios dizem que a vida é curta, incerta e em constante mudança.

“Tanto o rico quanto o pobre experimentam o contato com o mundo dos sentidos; o mesmo vale para o tolo e o sábio. A pessoa tola, entretanto, devido à falta de sabedoria fica confusa e ferida pelo contato. Quanto ao homem sábio, mesmo que experimente o contato, isso não o irrita. Deste modo, a sabedoria é melhor do que a riqueza, pois conduz à meta mais elevada da vida” [M.II.72-3; Thag.776-784].

Atitude mental face à riqueza

Um verdadeiro buddhista laico não só procura a riqueza legalmente e gasta-a com fins construtivos, como também goza de liberdade espiritual, não estando apegada a ela, apaixonado por ela ou escravizado por ela. Esse é o ponto onde o mundano e o transcendente se encontram. O Buddha classifica os laicos (kamabhogi, aqueles que participam nos prazeres dos sentidos) em vários níveis de acordo com os meios legais e ilegais de procurar riqueza, o gastar ou não gastar a riqueza para a felicidade própria e dos outros, e a atitude de ganância e apego ou sabedoria e liberdade espiritual para lidar com a riqueza. O tipo mais elevado de pessoa goza a vida tanto no plano mundano como no transcendente, do seguinte modo:

Mundano:

1. buscando riqueza de modo legal e honesto.

2. olhando para as próprias necessidades.

3. partilhando com outros e realizando atos meritórios.

Transcendente:

4. usando a própria riqueza sem ganância, ânsia ou extravagância, atento para os perigos e em posse do insight que sustenta a liberdade espiritual.

De tal pessoa é dito ser um Nobre Discípulo, aquele que está progredindo em direção à perfeição individual. O interesse particular aqui é a compatibilidade entre o mundano e as esferas transcendentes da vida, que se combinam para formar o todo integrante da ética buddhista, que só se aperfeiçoa quando a esfera transcendente é incorporada.

Apesar de sua grande utilidade, porém, muita importância não deve ser dada a riqueza. As suas limitações em relação à realização do objetivo do Nibbāna, além disso, também devem ser reconhecidas. Embora no nível mundano a pobreza seja algo a ser evitado, uma pessoa pobre não é completamente destituída de meios para fazer o bem para si ou para a sociedade. As dez maneiras de fazer o mérito podem começar com a doação, mas também incluem a conduta moral, o desenvolvimento de qualidades mentais, a prestação de serviço, e os ensinamentos do Dhamma. Por causa da pobreza, as pessoas podem estar muito mais preocupadas com a luta pela sobrevivência do que fazer qualquer coisa para a sua própria perfeição, mas, quando as necessidades básicas de vida estão satisfeitas, se forem mentalmente qualificados e motivados, não há nenhuma razão pela qual não possam realizar a perfeição individual. Embora a riqueza como um recurso para alcançar o bem social possa ajudar a criar circunstâncias favoráveis para realizar a perfeição individual, em última análise, é a maturidade mental e sabedoria, não a riqueza, que provocam a sua realização. Abuso e má utilização da riqueza, não só impede o desenvolvimento individual, mas também pode ser prejudicial para o bem social.

“A riqueza destrói o tolo, mas não aqueles que procuram a outra margem”. [Dh.355]

Uma vida que é livre – aquela que não é excessivamente dependente de coisas materiais – é uma vida que não é iludida por elas. Isto exige um conhecimento claro dos benefícios e limitações dos bens materiais. Sem tal sabedoria, nós investimos toda a nossa felicidade em coisas materiais, mesmo que elas nunca levem a qualidades superiores da mente. Na verdade, enquanto permanecemos apegados a elas, as posses dificultam até a simples paz da mente. Pela sua própria natureza, as coisas materiais não têm a capacidade de satisfazer completamente: elas são impermanentes e instáveis, em última instância, não podem ser controladas e inevitavelmente se dissolvem. Agarrando-as, sofremos desnecessariamente. Quando nascemos elas não nasceram conosco, e quando morremos, não podemos levá-las junto.

Usados com sabedoria, os bens materiais podem ajudar a aliviar o sofrimento, mas usados sem sabedoria, eles só aumentam o sofrimento. Ao consumir bens materiais com discriminação podemos desfrutar o verdadeiro valor deles.

Aquele que ganha riquezas por aplicação diligente para a subsistência, e aquele que usa a riqueza para uma boa utilização para si e para os outros, é considerado vitorioso no Buddhismo, tanto neste mundo quanto no próximo [D.III.181]. Quando ele também é dotado da sabedoria que leva ao desapego (nissarana-pañña), quando ele não se deixa ser escravizado por posses nem as carrega como um fardo, quando ele pode viver alegremente e sem confusões, sem ser estragado pelas riquezas do mundo, ele é ainda mais louvável.

As Principais Características da Ciência da Economia Buddhista

1. Economia do Caminho do Meio: realização de verdadeiro bem-estar

O Buddhismo é cheio de ensinamentos que se referem ao Caminho do Meio, a quantidade correta e o conhecimento da moderação, e todos esses termos podem ser considerados como sinônimos para a ideia de balanço ou de equilíbrio. Conhecimento da moderação é chamado nas escrituras buddhistas como mattaññuta. Mattaññuta é a característica definidora da economia buddhista. Conhecer a moderação significa saber a quantidade ideal, quanto é a “dose certa”. É uma consciência de que o ponto ideal está onde a valorização do verdadeiro bem-estar coincide com a experiência de satisfação. Este ponto ideal, ou ponto de equilíbrio, é alcançado quando experimentamos a satisfação por ter atendido a necessidade de qualidade de vida ou bem-estar. Consumo, por exemplo, que está em sintonia com o Caminho do Meio, deve ser equilibrado com uma quantidade adequada para a realização do bem-estar, em vez da satisfação dos desejos. Assim, em contraste com a clássica equação econômica de consumo máximo levando a máxima satisfação, temos a moderação, ou o consumo sábio, levando ao bem-estar.

2. A Economia do Caminho do Meio: não causar mal a si mesmo ou aos outros.

Um significado adicional do termo “apenas a quantidade correta” é de não causar mal a si mesmo ou aos outros. Este é outro princípio importante e um que é usado no Buddhismo como o critério básico da ação humana, não apenas em relação ao consumo, mas para toda a atividade humana. Aqui pode ser observado que, no Buddhismo, “não causar mal aos outros” se aplica não apenas aos seres humanos, mas para todos os seres viventes.

Da perspectiva do Buddhismo, os princípios econômicos estão relacionados aos três aspectos interconectados da existência humana: seres humanos, sociedade e ambiente natural. A economia buddhista deve estar em consonância com todo o processo causador, e para isso deve ter um bom relacionamento com todas essas três áreas, e essas por sua vez devem estar em harmonia e se apoiar mutuamente. A atividade econômica deve ocorrer de forma a não prejudicar a si próprio (por provocar uma diminuição da qualidade de vida) e não prejudicar aos demais (por provocar problemas na sociedade ou desequilíbrio no meio ambiente).

No presente momento, há uma crescente conscientização sobre temas ambientais nos países em desenvolvimento. As pessoas estão ansiosas sobre atividades econômicas que usam produtos químicos tóxicos e combustíveis fósseis. Esse tipo de atividade é danoso para a saúde dos indivíduos e para o bem-estar da sociedade e do meio ambiente. Tais atividades podem ser incluídas na frase “danosa para si mesmo e para os outros”, e são um grande problema para a humanidade.


Traduzido pelo Grupo de Tradução do Centro Nalanda
em acordo com Buddhadhamma Foundation
Para Distribuição Gratuita
© 2013 Edições Nalanda

Nota: “Escritos sobre o Buddha Dhamma” consiste de um conjunto de escritos de um dos mais respeitados monges da Thailândia contemporânea, Venerável Ajahn Payutto.


* Se você tem habilidades linguísticas e gostaria de traduzir e dispor suas traduções em nossa sala de estudos para que mais pessoas possam ter acesso aos ensinamentos do Dhamma, nós o/a convidamos para entrar em contato conosco. Precisamos de tradutores do espanhol, inglês, alemão e outras línguas.

One Comment:

  1. eia pois o conhecimento a ser distribuido, tal texto é uma oração que jamais será esquecida a não por gananciosos. grato.

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