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~ por Ven. Ajahn Payutto ~

3. Ocultadores das Três Características

Apesar de impermanência, dukkha e não-eu serem características comuns de todas as coisas e revelarem-se constantemente, as pessoas geralmente não os notam. Eles são obscurecidos. Se a atenção e investigação não são aplicadas corretamente, não se reconhece os fatores  obscurecedores. Estes fatores incluem: [63]

1. Continuidade (santati): oculta a impermanência.

2. Movimento (iriyāpatha): oculta dukkha.

3. Solidez (ghana): oculta o não-eu.

Por não prestar cuidadosa atenção ao surgir e cessar, ao nascimento e decadência, permite-se à continuidade (santati) ocultar a característica de impermanência. Todas as coisas que nós experimentamos, perpetuamente surgem e desvanecem, mas tal surgimento e cessação ocorrem de forma contínua e veloz. Esta rápida sucessão engana as pessoas com a visão de coisas aparentemente estáveis e imutáveis. Por exemplo, a imagem de si mesmo ou de um amigo parece a mesma de um pouco antes, mas conforme o tempo passa percebe-se que a mudança ocorreu. Na verdade, porém, a transmutação acontece incessantemente, sem qualquer lacuna visível. Um exemplo dessa ilusão é quando se percebe uma hélice girando como um disco imóvel. Quando a velocidade de rotação diminui vê-se uma hélice com várias pás móveis. Da mesma forma em que uma pessoa rapidamente girando uma tocha num movimento que aparece como um círculo de luz. Outro exemplo é a luz de uma lâmpada, que é vista como uma esfera constantemente brilhante, mas na realidade é o resultado de uma rápida flutuação da corrente elétrica. Quando se aplica os meios apropriados, prestando especial atenção ao surgimento e cessação das coisas, então a impermanência – aniccatā – torna-se clara.

Da mesma forma, com a falta de atenção à pressão permanente, o movimento (iriyāpatha) obscurece a característica de dukkha. As pessoas normalmente precisam de um período de tempo para perceber a instabilidade, a incapacidade que um objeto tem de manter-se ou ser sustentado em uma forma original devido ao stress e atrito no interior de seus componentes. [70/7] Se, entretanto, o objeto é movido ou modificado, ou o observador está à parte dele, a pressão e a tensão não são visíveis. Nossa experiência das coisas normalmente ocorre no contexto de tal movimento, e assim dukkha não é reconhecido. Tomemos por exemplo o corpo humano. Não é preciso esperar até que o corpo pereça; mesmo na vida diária sempre existe pressão dentro do corpo impedindo a pessoa de permanecer em uma única posição. Se a pessoa tiver que permanecer numa única postura por muito tempo, seja de pé, sentado, andando ou deitado, a tensão física aumenta progressivamente até ao ponto da dor e exaustão, até que elas sejam insuportáveis. A pessoa deve então mover-se ou mudar de postura.* Uma vez que a pressão (em consequência da característica de dukkha) no corpo cessa, a sensação de dor (dukkha-vedanā) também cessa. (Quando um sentimento/sensação de dor desaparece, normalmente surge uma sensação de bem-estar em seu lugar, o que chamamos de ‘felicidade’. Mas isto é simplesmente um sentimento/sensação. Na realidade, há apenas uma atenuação e alívio de dukkha – pressão). Permanecer por muito tempo em uma única posição dói, e apressa-se a mudança de posição. Normalmente, as pessoas se movem continuamente para evitar uma sensação/sentimento de desconforto. Por evitar-se o desconforto, dukkha, a verdade inerente a todas as condições é, consequentemente, ignorada.

*Iriyāpatha também significa postura, literalmente “forma de movimento”.

Da mesma forma, pela falha em separar um objeto em seus diversos elementos, a característica de não-eu é obscurecida pela solidez (ghana): algo existindo como um nódulo, massa ou uma unidade amalgamada. Todas as coisas condicionadas são criadas por uma fusão de elementos componentes. Uma vez que os elementos são separados, essa unidade integrada chamada por um nome específico deixa de existir. Geralmente os seres humanos não discernem esta verdade que é obscurecida pela percepção de solidez (ghanasaññā): o reconhecimento ou denotação de algo como uma entidade consolidada. Isto é consistente com o dito do povo tailandês: ‘Vê-se o casaco, mas não o pano, vê-se a boneca, mas não o plástico’. As pessoas podem ser enganadas pela imagem de um casaco, falhando em perceber o tecido com o qual foi confeccionado. Na verdade, não existe nenhum casaco; existem inúmeros fios tecidos em um padrão. Se os fios são desemaranhados o casaco não existe mais. Da mesma forma, uma criança que só vê uma boneca está iludida por esta imagem. O plástico, que é a real substância da boneca, não é reconhecido. Se a verdade é percebida, então há apenas plástico, nenhuma boneca pode ser encontrada. Mesmo o plástico é originado da composição sucessiva de elementos. A percepção da solidez obscurece a característica de não-eu da maneira demonstrada por estes exemplos simples. Se uma pessoa separa e analisa os componentes a natureza do não-eu se torna clara. Vê-se as coisas como anattā. [70/8]

 

Traduzido por Jorge Furtado para o Centro Nalanda
em acordo com Buddhadhamma Foundation
Para Distribuição Gratuita
© 2011 Edições Nalanda


Nota: “Escritos sobre o Buddha Dhamma” consiste de um conjunto de escritos de um dos mais respeitados monges da Thailândia contemporânea, Venerável Ajahn Payutto.


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