Buddhismo e Sexo~ Ven. S. Dhammika ~

O casamento (āvāhavihvha) é a união formal de um homem e uma mulher que normalmente acontece em uma cerimônia. Para o Buddhismo, o casamento é uma instituição secular, um arranjo entre duas pessoas ou duas famílias, e o Buddhismo não insiste na monogamia, poligamia, poliandria ou qualquer outra forma de casamento. Havia diversas formas de união na Índia antiga, sendo que as mais comuns consistiam no (a) arranjo entre pais ou guardiães, (b) aqueles onde o casal se escolhia mediante o consentimento dos pais e (c) a fuga do casal.

Os antigos livros sobre a lei chamavam Svayaṃvara a esta segunda forma e, à terceira, Gāndharva. Era dito que era bom para os noivos terem a mesma idade (tulyavaya), idealmente 16 anos, embora o Kāma Sūtra recomende que a noiva seja 3 anos mais nova que o noivo. O Buddha viu a fidelidade (anubbata ou assava) como uma componente fundamental do casamento [1], e mencionou que o adultério (aticariya) está contra o terceiro preceito e nada disse sobre o divórcio. O Buddha considerou inapropriado que homens velhos se casassem com mulheres muito mais novas [2].

Tradicionalmente, os buddhistas têm praticado a forma de casamento que prevalece na sociedade em que vivem. Embora o Buddha não tenha defendido nenhuma forma particular de casamento, está claro que ele preferia a monogamia. Seu pai, Suddhodana, teve duas esposas e, como um príncipe, ele também poderia ter tido várias esposas, mas optou por ter apenas uma. Em um discurso sobre casamento, o Buddha analisou apenas a monogamia, implicando novamente que esta era a que ele aceitava como melhor forma de casamento [3].

Ele disse que se uma mulher carece de mérito ela pode ter que lidar com uma co-esposa (sapattī [4]), e as escrituras discutem as desvantagens da poligamia para as mulheres. “Ser uma co-esposa é doloroso” [5], “”A pior miséria de uma mulher é brigar com as co-esposas de seu marido” [6]. Tais problemas são confirmados pelo Kāma Sūtra que descreve as tensões e manobras entre várias esposas na mesma casa. Parece haver pouca dúvida de que foi por esses motivos que os Jataka aconselham: “Não tenho uma esposa em comum com outra” [7].

Tendo sido tanto um marido quanto brevemente um pai, o Buddha foi capaz de falar sobre casamento e paternidade a partir de sua experiência pessoal. Um marido, ele disse, deve honrar e respeitar sua esposa, nunca desprezá-la, ser fiel, dar-lhe autonomia e provê-la financeiramente. Uma mulher deve fazer seu trabalho corretamente, gerenciar os funcionários, ser fiel ao marido, proteger a renda da família e ser hábil e diligente [8]. Ele disse que um casal que está seguindo o Dhamma irá “falar palavras de amor um para o outro” (aññamañña piyaṃvādā) [9] e que “valorizar os filhos e o cônjuge é uma grande benção” (puttadārassasaṅgaho … etaṃ maṅgalam uttamaṃ) [10] . Ele disse que “uma boa esposa é a alma gêmea suprema” (bharyā va paramā sakhā) [11] e os comentários do Jātaka dizem que o marido e a mulher devem viver “com mentes alegres, em um só coração e em harmonia” (pamodamānā ekacittā samaggavāsaṃ) [12]. O Buddha criticou os brāhmanas por comprarem suas esposas, ao invés de “estarem juntos em harmonia e devido à afeição mútua” (sampiyena pi saṃvāsaṃ samaggatthāya sampavattenti) [13], o que implica que ele considerava isso como um motivo muito melhor para o casamento. “Neste mundo, união sem amor é sofrimento”, diz o Jātaka (lokismiṃ hi appiyasampayogo va dukkha) [14].

Segundo a compreensão buddhista, se um marido e sua esposa se amam profundamente e têm um kamma semelhante, eles podem conseguir renovar o seu relacionamento na próxima vida [15]. Ele disse também que a afinidade forte que duas pessoas sentem uma em relação a outra pode ser explicada pelo fato delas terem tido um amor forte em uma vida anterior. “Ao terem vivido juntos no passado e pela afeição no presente, o amor nasce tão certamente como um lótus nasce na água” [16]. Esta ideia é elaborada no Mahavastu: “Quando o amor penetra a mente e o coração está alegre, o homem inteligente pode dizer com convicção: ‘Esta mulher viveu comigo antes’” [17].

O casal buddhista ideal seria Nakulapita e Nakulamata, que foram dedicados discípulos de Buddha e que tinham sido bem casados por muitos anos. Uma vez Nakulapita disse ao Buddha, na presença de sua esposa: “Senhor, desde que Nakulamata foi trazida para minha casa, quando eu era ainda um menino e ela ainda uma menina, eu nunca fui infiel a ela, nem mesmo em pensamento, e muito menos no corpo” [18]. Em outra ocasião, Nakulamata cuidou devotadamente de seu marido durante uma longa doença, incentivando e assegurando-lhe todo o tempo. Quando soube disso, o Buddha disse a Nakulapita: “Você se beneficiou, bondoso senhor, o senhor foi grandemente beneficiado, por Nakulamata ter sido cheio de compaixão pelo senhor, cheio de amor, como seu mentor e professor”, (anukampikā,atthakāmā, ovādikā, anusasikā) [19]. A partir de uma perspectiva buddhista, essas qualidades seriam a receita para um relacionamento duradouro e enriquecedor – fidelidade, amor mútuo e compaixão, e ser o mentor espiritual e mestre um do outro”.

Parece que, ao longo da história, os buddhistas comuns eram monogâmicos, embora os monarcas fossem, por vezes, polígamos, e a poliandria era comum no Tibete até recentemente. No planalto do Sri Lanka, durante o período medieval, a poliandria era praticada e ainda é em partes do Himalaia indiano ocidental. Hoje, a monogamia é a única forma legalmente aceita de casamento em todos os países buddhistas, embora o antigo rei do Butão tivesse duas esposas. Não há qualquer cerimônia específica de casamento buddhista; diferentes países têm seus próprios costumes, nos quais monges não realizam ou participam. No entanto, pouco antes ou depois do casamento, a noiva e o noivo, muitas vezes, vão a um mosteiro para receber a bênção de um monge.

É preciso ter em mente que a atitude do Cristianismo primitivo para com o sexo e o casamento era similar à do Buddhismo primitivo – dando a eles um lugar, mas apenas um lugar secundário, depois do celibato e da vida de solteiro em santidade. Jesus foi solteiro e não disse nada sobre o casamento além de proibir o divórcio (Mateus 19,6; Lucas 16, 18) exceto em casos de adultério, e para sustentar que casamentos não tem lugar no céu (Mateus 22,30. Marcos 12,25; Lucas 20,25). Suas opiniões sobre a família foram muito próximas das de Budhha, embora muito mais radicais, mais do que são as de alguns cristãos modernos. “Se alguém vier a mim e não odiar pai e mãe, esposa e filhos, irmãos e irmãs, sim, mesmo sua própria vida, semelhante pessoa não pode ser meu discípulo” (Lucas 14,26). “E todos aqueles que, por minha causa, deixarem suas casas ou irmãos ou irmãs ou pai ou mãe ou esposa ou filhos ou terras receberão cem vezes mais e herdarão a vida eterna” (Mateus 19.29). “Porque eu vim para colocar um homem contra seu pai, uma filha contra sua mãe’…os inimigos de um homem serão os membros de sua própria casa” (Mateus 10:34-6). São Paulo via o casamento como uma concessão para os fracos de vontade. “Agora para os solteiros e para as viúvas eu digo o seguinte; é bom para ele que continuem solteiros, como eu. Mas, caso eles não consigam se controlar, eles devem casar, pois é melhor casar do que queimar com desejo” (Coríntios 7:8-9). Tais atitudes eram a norma durante os primeiros séculos do Cristianismo. Comentando sobre o conselho de São Paulo para não tocar uma mulher (1 Cor. 7: 1), São Jerônimo (347-420) disse: “É bom, diz ele, que um homem não toque em mulher. Se é bom não tocar uma mulher, então é ruim tocar; pois não há o que, sendo oposto à bondade, não seja maldade. Mas, se é mau e o mau for perdoado, a razão para tal concessão é evitar mal pior”. O Cristianismo antigo suspeitava de todas as expressões da sexualidade e como o Buddhismo antigo, considerava a virgindade o estado preferível. A condenação específica da homossexualidade era, provavelmente, em parte devido à sua associação com a cultura clássica, algo que os primeiros cristãos desprezavam.

Notas

  1. Digha Nikaya III,190
  2. Sutta Nipata 110
  3. Anguttara Nikaya IV, 91
  4. Samyutta Nikaya IV, 249
  5. Therigatha 216
  6. Ja.IV,316
  7. Ja.VI,286
  8. Digha Nikaya III, 190
  9. Anguttara Nikaya II, 59
  10. Sutta Nikaya 262
  11. Samyutta Nikaya I, 37
  12. Jataka II,122
  13. Anguttara Nikaya II, 222
  14. Jataka II, 205
  15. Anguttara Nikaya II,161
  16. Jataka II, 235
  17. Mahavastu III,185
  18. Anguttara Nikaya II, 61
  19. Anguttara Nikaya III, 295-8

Traduzido pelo Grupo de Tradução do Centro Nalanda
em acordo com o autor
Para Distribuição Gratuita
© 2015-2016 Edições Nalanda

Nota: Este artigo é parte da série Buddhismo e as questões LGBT que está sendo traduzida e cujas partes serão publicadas aqui no site.


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