por Ven. S. Dhammika

Antes de examinar a atitude buddhista em relação à homossexualidade pode ser útil olhar para a oposição a esta e tentar compreender as raízes de tal oposição. A maioria das sociedades ao longo da história deu algum papel para os homossexuais, geralmente um que fosse marginal e inferior, e tolerou a homossexualidade de uma forma ou de outra. Na Europa, entretanto, a oposição à homossexualidade tem sido feroz e permanente, ao menos depois do triunfo do Cristianismo. A hostilidade cristã à homossexualidade pode ser atribuída a certos conceitos teológicos. A ambiguidade do Cristianismo primitivo em relação à sexualidade gradualmente deu lugar a uma aceitação na condição de que ela só poderia ter a finalidade da procriação. Isso foi justificado pela ordem de Deus a Adão e Eva de que eles “fossem frutíferos e se multiplicassem”. O sexo entre homossexuais não pode produzir descendência e, portanto, opõe-se à finalidade primordial de Deus, assim como a masturbação, o coito interrompido e a zoofilia. A outra fonte de hostilidade do Cristianismo em relação à homossexualidade é a doutrina do castigo divino, a ideia de que Deus pune a imoralidade humana, individual, mas também coletivamente [1]. Por conseguinte, a homossexualidade não é apenas contra a vontade de Deus, mas também perigosa, mesmo para aqueles que não a praticam. O mais conhecido, mas nem por isso o único exemplo bíblico de punição coletiva de Deus para falhas morais da humanidade, é o destino de Sodoma [2]. A cidade e seus habitantes foram incinerados porque alguns de seus homens cometeram sodomia. Alguns acadêmicos sugerem que o pecado que trouxe essa terrível punição, não foi a sodomia ou a violação homossexual, mas a falha em receber bem os estrangeiros [3]. Seja como for, foi assim, por 2500 anos, que judeus e cristãos, interpretaram a história. Desde os tempos bíblicos, um enorme número de desastres naturais ou causados pelo homem foi atribuído à ira de Deus. A queda de Roma, em 410 d.C., foi vista como uma punição de Deus à rejeição pela cidade do Evangelho e a sua perseguição aos cristãos. No código jurídico de 559, o imperador cristão Justiniano associou “a fome, os tremores de terra, a peste” às práticas homossexuais. Na década de 1340, a Peste Negra foi a punição de Deus ao vício e à corrupção, e a invasão mongol, o ‘martelo de Deus’. Em 1561, o relâmpago que destruiu o pináculo da Catedral de São Paulo, em Londres, foi tomado como um aviso de Deus de que ele puniria a cidade por sua frouxidão moral. O catastrófico terremoto de Lisboa de 1755 fora largamente atribuído à punição de Deus pela suposta decadência da cidade.

Embora a crença no castigo divino, numa escala coletiva, tenha diminuído consideravelmente nos últimos séculos, ela não se extinguiu. Logo após o desastre provocado pelo furacão Katrina em Nova Orleans, o evangelista Pat Robinson anunciou na televisão que o desastre era punição divina em razão da política americana para abortos. Robinson não é uma voz solitária. Milhões de pessoas assistem seus programas regularmente. Em 2007, o bispo anglicano de Carlisle avisou que as recorrentes inundações no Reino Unido eram resultado da imoralidade sexual incluindo a homossexualidade. Previsões de destruição e desgraça têm sido um aspecto constante dos sermões cristãos.

Os cristãos mais sofisticados são relutantes em expressar a sua oposição à homossexualidade nos termos de hoje, pois tendem a parecer ridículos. A conversa agora é mais sobre a homossexualidade ser “não natural”, sobre a “destruição da família”, “o colapso dos valores tradicionais”, “preocupação para os jovens” e “os riscos para a saúde relacionados ao estilo de vida homossexual”. No entanto, por trás dessas racionalizações, as ideias antigas sobre procriação e retribuição divina provavelmente ainda espreitam.

Claro que os homossexuais não são de maneira nenhuma os únicos demônios a suscitar a cólera de Deus. Mas, como a maioria geralmente não gosta deles e como são em menor número, foram sempre o grupo preferido a destacar, denegrir ou culpar pelas catástrofes reais ou potenciais.

Relacionado com o que acaba de ser dito, há um ponto que merece ser considerado. Nos últimos anos tornou-se comum acusar qualquer um que conteste a homossexualidade, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou de parceiros do mesmo sexo a adotarem crianças, de estar fomentando o ódio, e sua fala como um discurso de ódio. Embora seja verdade que muitos cristão abriguem uma oposição intensa e até mesmo um ódio dos homossexuais, existem também igualmente os muitos que tentam aderir a exortação de Jesus de amar a todos, inclusive aqueles considerados pecadores. Estes cristãos mais razoáveis dizem, e provavelmente estão sendo genuínos quando o fazem, que amam os homossexuais apesar de desaprovarem seu comportamento. Portanto, os homossexuais devem ter cuidado para não fazer aos outros o que tem sido, tantas vezes, feito a eles: acusá-los de coisas de que não são culpados. Desaprovar o comportamento de alguém ou de seu estilo de vida não é necessariamente o mesmo que odiá-los.

Poucas pessoas não religiosas fazem objeção à homossexualidade além de admitir uma aversão pessoal a ela. No entanto, alguns sociólogos, psiquiatras, assistentes sociais e outros, têm expressado inquietação com relação a parceiros do mesmo sexo adotarem crianças. Um argumento apresentado é de que poderia ser psicologicamente prejudicial negar a uma criança uma mãe, no caso de dois homens casados; ou um pai, no caso de duas lésbicas. No momento, não há nenhuma evidência de como lidar com essa preocupação de uma maneira ou de outra, já que a adoção por casais do mesmo sexo é muito recente. Mas a realidade é que várias crianças são criadas por somente um dos pais, ou por nenhum deles (órfãs), e se tornam adultos bem-ajustados. Também é verdade que algumas crianças crescem em famílias heterossexuais profundamente disfuncionais e se saem bem do mesmo modo. Ter pais amorosos, ou somente um deles, e uma vida estável em casa é inquestionavelmente o cenário mais favorável, mas isto nunca foi garantido por um casamento heterossexual, como qualquer agência de proteção a crianças pode testemunhar. Uma vez permitida a adoção de crianças por casais de mesmo sexo, parte das famílias daí resultantes terão sucesso e outras não. Certamente, famílias de mesmo sexo têm mais chance de sucesso caso tenham proteção legal e haja maior aceitação da homossexualidade.

Notas

  1. Veja Divine Retribution: A Forgotten Doctrine, por Andrew Atherstone em Themelios, Vol.34 No. 1
  2. A história é mencionada ou referida em Genesis 18,16; 19,29 e Judas 7
  3. Em Isaías 1,10 segs., Jeremias 23,14 e Ezra 16,49 segs.. não são os pecados sexuais de Sodoma que são enfatizados, mas a mentira, o orgulho, a hipocrisia, etc.

 


Traduzido pelo Grupo de Tradução do Centro Nalanda
em acordo com o autor
Para Distribuição Gratuita
© 2015 Edições Nalanda

Nota: Este artigo é parte de da série Buddhismo e as questões LGBT que está sendo traduzida e cujas partes serão publicadas aqui no site.


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