Origens
De Onde Viemos
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Tan Ajahn Buddhadasa, o querido mestre com o qual tive a honra de conviver foi o primeiro monge theravada na história da Thailândia a traduzir um texto mahayana (O Sutra de Huang-po) e comentá-lo ativamente. Em seus ensinamentos e atitudes, trazia exemplos do zen; escreveu sobre terra pura; incentivou a ler os significados mais profundos que jaziam intocados nas escrituras originais; exortou os praticantes do theravada, imersos no estudo de comentários posteriores do Abhidhamma, a voltarem-se para o estudo dos suttas e a buscar as palavras do Buddha mais do que a de comentadores. Inovador, renovador, polêmico, Tan Ajahn e a criação de seu mosteiro Wat Suan Mokkh (Jardim da Libertação) são freqüentemente mencionados como “o maior evento da história buddhista desde Buddhaghosa (o famoso comentador do Buddhismo Theravada)” e é dito ser o mestre buddhista mais influente da história da Thailândia. Dialogou e fomentou conferências com cristãos e muçulmanos; recebeu visitas de líderes religiosos de todo o mundo - inclusive do Dalai Lama -, os quais reconheceram seu espírito singular.
Maha Ghosananda, Supremo Patriarca do Buddhismo Cambojano e o primeiro monge theravada com quem tive contato, era inegavelmente trans-denominacional. Dele era a religião do amor, da paz, passo a passo. Líderes buddhistas de todas as escolas o chamavam de ‘bodhisattva’, e outros de “Gandhi do Camboja”. Suas Dhamma Yetra (caminhadas pela paz) - meditações andando com centenas de pessoas de todo o mundo caminhando pelos campos minados do Camboja - chamavam ambos os lados da guerras, para andar lado a lado.
Sayadaw Rewata Dhamma, o querido mestre que tanto carinho teve por nós e por nossa comunidade no Brasil, foi outra dessas pessoas únicas que não se deixam amarrar pelo exclusivismo caduco, mas corajosamente representam uma ponta de lança a mostrar o caminho da liberdade em relação aos conceitos. Conhecido como um dos Três Leões do Abhidhamma pela comunidade theravada mundial (juntamente com U Silananda e Bhikkhu Bodhi), renomado Aggamahapandita por seu profundo conhecimento do Tipitaka e comentários, professor nas linhagens de Mahasi Sayadaw e U Ba Khin, o Ven. Rewata Dhamma também era um profundo estudioso do Mahayana e do Buddhismo Tibetano. Foi companheiro de casa e amigo pessoal de nomes como Kalu Rinpoche e Tarthang Tulku. Quando o XVI Sakyapa partiu da Inglaterra, o nome que indicou para sucedê-lo como diretor espiritual de sua comunidade não foi um tibetano, mas o monge theravada Rewata Dhamma, seu amigo.
A tais professores do único dharma e seus sinceros discípulos, somente posso agradecer por toda a ajuda em motivação, ensinamento, exemplo e amizade. Quando olho para trás em busca de outros mestres que conheci e que me influenciaram diretamente no Dhamma do Buddha, vejo que eles igualmente compartilhavam desse espírito não-sectário e abrangente. Anagarika Munindra-ji viu além das linhagens de meditação, sendo considerado um dos avós de vipassana e metta no Ocidente, por ter sido o professor de algumas figuras instrumentais em trazer o Buddhismo para o mundo ocidental, tais como Joseph Goldstein, Sharon Salzberg e Lama Surya Das; Dipa-ma e Ajahn Ranjuan trouxeram a suavidade da verdadeira natureza feminina que vai além do conflito; Shinzen, o monge Shingon que se voltou à meditação theravada e ao qual devo algumas das melhores descobertas na meditação.
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Da mesma forma, no Nalanda, o foco não é em formar instrutores ou professores, não é criar círculos esotéricos de iniciados e não-iniciados, ou estabelecer hierarquias de gurus e discípulos ou antigos e novos; mas, sim, incentivar a existência de amigos dispostos a ajudarem-se mutuamente no entendimento e prática dos ensinamentos primevos do
Buddha. Para quem deseja entender o espírito que nos inspira, recomendo enfaticamente ler (várias vezes) o artigo Jardim da Libertação de Ajahn Santikaro, discípulo de Tan Ajahn, e nosso amigo e professor, que captou tão bem em palavras o ambiente vivido por aqueles que tiveram oportunidade de conviver em Suan Mokkh quando o mestre estava vivo.
Olhando para trás, penso que o nome ‘Nalanda’ é bastante apropriado para nossa comunidade. Lugar de nascimento de Sariputta, Nalanda traz à lembrança os discípulos do Buddha, o conhecimento dos Suttas e do Abhidhamma (o nome de Sariputta frequentemente é associado à transmissão do Abhidhamma). Enquanto Universidade - Nalanda se tornou posteriomente o mais importante centro educacional de toda a história antiga do Buddhismo (o Dalai Lama disse, certa vez, que todas as manhãs se volta para Nalanda para agradecer, pois toda a tradição tibetana surgiu de lá) - ela nos traz à lembrança a importância do estudo sério e profundo.
E qual era a característica principal de Nalanda? Na antiga Universidade Nalanda, professores, monges e alunos de *todas* as escolas eram recebidos e conviviam pacificamente. E não apenas o dharma buddhista era estudado, mas outros temas e religiões também. Lá, a cor do manto ou a denominação não eram o que importava, mas sim a sede por conhecimento e a devoção aos ensinamentos do Buddha, viessem sob que nome fosse. Investigar, inquirir, descobrir - foram marcas da antiga Nalanda. Não aceitar respostas prontas e superficiais ou modelos enrijecidos, e nunca cessar em buscar o cerne do que o Buddha nos quis ensinar.
É nesses gigantes do não-sectarismo e do espírito inquiridor que o pequeno Nalanda no Brasil se inspira, se renova, e bebe do Dharma, esperançosamente sob o olhar benevolente do mestre de todos, o Bem-Aventurado, Valoroso, Desperto.
.: reflexões de Dhanapala
Que o Senhor Buddha repouse sobre nossa cabeça
Que o Dhamma repouse sobre nossa cabeça
Que a Sangha repouse sobre nossa cabeça
Que nossos pais repousem sobre nossa cabeça
Que nossos professores repousem sobre nossa cabeça
Inumeráveis são os benefícios que estes cinco nos conferem!



