Centro de Estudos Buddhistas Nalanda

Caminhada pela Paz, Marchando Juntos por causa do Amor

A Caminhada pela Paz reunindo‑se no Lincoln Memorial, em Washington, D.C., em 11 de fevereiro de 2026.
Fotografia de Felixmasi Photography.

Por Venerável Bhikkhu Bodhi

Às vezes, um acontecimento que começa de forma discreta ganha impulso repentinamente e produz um impacto colossal que ninguém poderia prever. Uma faísca aleatória se espalha pela vegetação seca e desencadeia um incêndio florestal. Um sopro de vento no alto de uma montanha inicia uma avalanche. Da noite para o dia, um cantor popular de rua torna‑se sensação internacional. Algo parecido ocorreu no final de 2025, quando vinte monges buddhistas theravada de diferentes etnias iniciaram uma longa Caminhada pela Paz. Partindo da obscuridade, ao final da jornada eles seriam conhecidos em todo o mundo.
Os monges partiram em 26 de outubro do Centro de Meditação Vipassana Huong Dao, em Fort Worth, Texas, acompanhados de seu fiel cão de resgate, Aloka, palavra em pāli que significa “Luz”. A caminhada, de 110 dias, percorreria 2300 milhas (cerca de 3700 km) atravessando oito estados do sul dos EUA. O destino era Washington, D.C., que pretendiam alcançar até 10 de fevereiro. No início, a Caminhada atraiu pouca atenção além das pessoas que encontravam ao longo da rota. Contudo, à medida que a notícia se espalhou pelas redes sociais, o número de visitantes – presencialmente e online – cresceu exponencialmente.

Aloka abre caminho – Fotografia cortesia da página no Facebook “Walk for Peace”.

Comecei a acompanhar a jornada no Facebook e no YouTube quando eles entraram no Alabama. O que vi me surpreendeu. Pessoas de todas as origens saíam para cumprimentar os monges, fazer reverências e solicitar suas bênçãos. A maioria dos presentes sabia pouco sobre buddhismo, mas ficava fascinada com a imagem de vinte homens asiáticos, vestidos com mantos cor de bronze, atravessando silenciosamente o país com serenidade e determinação. Nos intervalos para a refeição do meio‑dia e o descanso noturno, o líder da caminhada, Bhikkhu Paññākāra, proferia palestras regulares de Dhamma ao público. Cada discurso transmitia a mesma mensagem consistente: desacelere, esteja atento aos seus sentimentos e pensamentos, trate os outros com bondade e comece cada dia com a resolução “Hoje será o meu dia de paz”.

Ao chegar em Columbia, na Carolina do Sul, a plateia já contava milhares de pessoas. A página do Facebook sobre a caminhada acabou acumulando dois milhões de seguidores ao redor do planeta, e até Aloka, o Cão da Paz, ganhou sua própria página com um milhão de fãs. Em Raleigh, Carolina do Norte, o governador Josh Stein recebeu os monges e proclamou aquele dia de “Dia da Caminhada pela Paz”. Em Richmond, Virgínia, a governadora Abigail Spamberger assinou sua primeira proclamação como governadora, também nomeando o dia de “Dia da Caminhada pela Paz”.

Fotografia de Columbia, SC – cortesia da página no Facebook “Walk for Peace”.

Quando se aproximavam de Washington, os monges convidaram monásticos de todas as tradições buddhistas a participar dos eventos finais na capital. Eles me convidaram pessoalmente para falar na cerimônia de encerramento no Lincoln Memorial, marcada para 11 de fevereiro. Cheguei a Washington na noite de 9 de fevereiro e, no dia seguinte, participei de um encontro público com os monges na American University. Ao entrar no auditório, já havia mais de cem monásticos e várias centenas de convidados.

Quando o Venerável Paññākāra me viu chegar, chamou‑me ao palco e pediu que eu falasse. Não havia preparado discurso algum; ao chegar ao microfone, iniciei refletindo sobre as razões que fizeram a Caminhada despertar tão intensa resposta. Sugeri que a caminhada tocou profundamente o povo americano porque revelou um ponto sensível sob a casca dura da imensa riqueza e do poder militar dos EUA: uma profunda pobreza interior, a dor da solidão gerada pelas divisões que nos afastam uns dos outros. A Caminhada, expliquei, combatia essa enfermidade lembrando o que realmente importa: nossa humanidade compartilhada e a unidade fundamental.

Em seguida, proferi palavras que, inesperadamente, desencadearam uma tempestade na mídia. Observei que, ao mesmo tempo em que a Caminhada exaltava o ideal de unidade humana, o país violava esse ideal ao retirar seu financiamento às Nações Unidas e desmantelar a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Afirmar que essas decisões trariam consequências graves – inclusive a perda de milhões de vidas – foi interpretado por alguns meios como um ataque político. Um canal de notícias no YouTube chegou a rotular meu discurso “Monge buddhista ataca administração Trump em discurso inflamado”. Tal manchete deturpou completamente minhas intenções; eu não mencionei pessoa ou partido, apenas falei sobre o que “nosso país” estava fazendo. Recebi, porém, inúmeras mensagens de apoio. Uma delas veio de Joan Halifax Roshi, que me disse que eu havia colocado em palavras a verdade que milhões já testemunhavam, expressando aquilo que os monges queriam dizer, mas não podiam articular abertamente.

Mais tarde, naquele mesmo dia, caminhamos até a Catedral Nacional de Washington para uma cerimônia pública de boas‑vindas e uma sessão de perguntas e respostas. Quando um membro da plateia perguntou aos monges como conciliar a busca pela paz interior com a luta por justiça, o Venerável Paññākāra me convidou a responder. Mais uma vez, me vi em “boas dificuldades”, como dizia o falecido congressista John Lewis. Expliquei que a paz interior é uma base necessária, mas não basta; deve‑se usar essa paz como plataforma para promover justiça social e maior igualdade. Para ilustrar a urgência, mencionei as operações do ICE que traumatizaram comunidades por todo o país, despedaçando famílias, aterrorizando crianças e levando à detenção de milhares de imigrantes trabalhadores.

No dia seguinte, após a refeição do meio‑dia, os cerca de trezentos monásticos reunidos marcharam pelas ruas de Washington rumo ao Lincoln Memorial. O público ao longo do trajeto entregava flores, erguia cartazes de boas‑vindas e gritava “Obrigado, muito obrigado”. Fiquei particularmente emocionado ao ver inúmeras crianças nas ruas, trazidas por pais e professores para testemunhar um momento que lembrariam por toda a vida. O calor da acolhida foi tão intenso que, em certos momentos, um nó subia à garganta e as lágrimas molhavam os cantos dos meus olhos.

Ao chegar ao Lincoln Memorial, oradores e convidados especiais subiram ao patamar superior, de onde podiam observar a multidão reunida no National Mall – estimada entre 8000 e 10000 pessoas – e mais 30000 espectadores online. Sentamo‑nos exatamente onde, em 1963, Martin Luther King Jr. proferiu seu famoso discurso “I Have a Dream”. Nosso encontro parecia continuar naquele espírito, como se pudéssemos ouvir um aplauso silencioso vindo de Lincoln e King descendo dos céus.

Em meu breve discurso no memorial, elogiei a Caminhada como um dos eventos mais importantes, inspiradores e edificantes do século XXI. Ressaltei que ela trouxe à tona a melhor qualidade do caráter americano: o reconhecimento de que, independentemente de raça, fé ou origem, todos somos essencialmente iguais; que todos compartilham o anseio por paz, bondade e compaixão; que todos desejam construir uma nação baseada na afirmação mútua e na solidariedade. O Venerável Paññākāra encerrou a cerimônia destacando os cinco valores norteadores da Caminhada: amor, bondade, compaixão, harmonia e esperança.

Durante as semanas em que acompanhei a Caminhada no YouTube e no Facebook, uma dúvida persistia em minha mente. Seria suficiente instruir as pessoas a fazerem a resolução diária “Hoje será o meu dia de paz”? Embora a máxima sublinhe a necessidade de paz interior, perguntei‑me se ela constituía antídoto adequado à violência e ao ódio que se intensificaram no último ano – ataques a imigrantes, retórica política inflamatória, aumento das intervenções militares norte-americanas em diversos pontos críticos do globo. Pensamentos como “Ensinar a cultivar a paz interior basta para abrir caminho à paz mundial? E a Ucrânia? Gaza? As ameaças ao Irã? Os ataques a embarcações no Caribe? A repressão a imigrantes e pessoas trans?” me inquietavam.

Ao final, percebi que os monges estavam corretos ao evitar vincular a Caminhada a qualquer agenda política, por mais justa que fosse. Por meio de sua determinação silenciosa e da firme resolução de prosseguir apesar dos desafios, enviaram à nação e ao mundo a mensagem de que era necessária. Eles fizeram muros antigos racharem e desmoronar, ensinando uma poderosa lição de paz, compaixão e unidade humana que tocou milhões de corações. Seu silêncio sobre questões públicas não foi evasão de responsabilidade social; ao contrário, foi um convite ao despertar de uma consciência unitária que nos une na percepção compartilhada de nossa essencial unicidade.

Dois dias depois, surgiu outra oportunidade para transformar convicções éticas em ação. Em janeiro, recebi um e‑mail anunciando uma Marcha Moral na Carolina do Norte, de 11 a 13 de fevereiro, culminando em uma Assembleia Popular de Massa em Raleigh no Dia dos Namorados, 14 de fevereiro. O programa foi organizado pelos Repairers of the Breach, movimento de justiça social liderado pelo Bispo William Barber II, pastor, pregador e cofundador da Poor People’s Campaign. Como eu já estaria em Washington em fevereiro, decidi seguir para o sul após a Caminhada e participar da marcha e da assembleia. Isso também me permitiria visitar minha sobrinha, professora de sociologia na North Carolina State University, em Raleigh.

Ao contatar os Repairers of the Breach, fui recebido calorosamente e me ofereceram um espaço para falar na assembleia. Era a primeira vez que um monge buddhista era convidado a participar desse tipo de evento. Chegando a Raleigh em 12 de fevereiro, no dia seguinte participei da última etapa da marcha – uma travessia de cinco milhas (8 quilômetros) de Knightsdale a Raleigh. Diferente da silenciosa Caminhada pela Paz, esta marcha incluía cantos, músicas e cartazes sobre os temas que mais pesavam nos corações das pessoas. Ao chegarmos a Raleigh, o Bispo Barber me pediu que conduzisse uma curta meditação de amorosidade para os manifestantes.

Foto da marcha Repairers of the Breach em 12 de fevereiro – cortesia da página no Facebook “Repairers of the Breach”.

O tema da marcha e da assembleia foi “O Amor nos Empurra (todos juntos) Adiante”. A palavra “amor” transmitia o espírito do encontro; “adiante” enfatizava a agenda progressista de democracia e justiça; e “juntos” ressaltava a importância da ação coletiva. O programa culminou, em 14 de fevereiro, em uma Assembleia Popular de Massa de duas horas. Nesse momento, os oradores não se esquivaram das questões de interesse público, mas proclamaram suas convicções de forma ousada. Como era Dia dos Namorados, o Bispo Barber pediu que declarássemos claramente o que amamos. Respondemos: amamos tirar as pessoas da pobreza; amamos o direito ao voto para todos; amamos pagar aos trabalhadores um salário digno; amamos um seguro‑saúde universal e educação pública; amamos energia renovável; dar boas-vindas aos imigrantes; amamos os valores religiosos de misericórdia, graça e empatia.

Meu curto discurso ocorreu ao final da programação. A diretora, Dra. Hanna Broome, inicialmente me concedeu um minuto de fala, mas consegui persuadi‑la a me dar dois minutos, nos quais consegui condensar bastante conteúdo. Comecei citando as palavras de Martin Luther King Jr.: “Todos nós estamos entrelaçados em um único tecido do destino, presos em uma rede inescapável de mutualidade.” Expliquei que isso significa que não somos indivíduos isolados presos a identidades pessoais; ao contrário, nossas vidas são interdependentes, interconectadas e mutuamente penetrantes. Essa interconexão implica uma obrigação moral de amor, que na prática significa trabalhar juntos para garantir justiça e igualdade para todos, construir uma economia saudável que sustente a todos e transformar os EUA em uma nação de generosidade e compaixão ilimitadas, pronta a elevar as pessoas ao redor do mundo. Sentindo que havia entrelaçado as mensagens da Caminhada pela Paz e da Assembleia Moral em uma unidade coerente, juntei nossa busca por paz interior à responsabilidade de promover o bem comum.

Venerável Bhikkhu Bodhi é fundador e presidente da Buddhist Global Relief, organização dedicada a aliviar a fome e o sofrimento em regiões vulneráveis do planeta.

* Originariamente publicado na Newsletter da Buddhist Global Relief, e traduzido pelo Centro de Estudos Buddhistas Nalanda, com a permissão do autor

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