Uma Visão Buddhista sobre o Pós-Morte

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A reencarnação é uma doutrina que frequentemente tem deixado os estudiosos e pesquisadores confusos diante de tantas contradições. Sua principal defensora é a escola espírita francesa, pois não podemos esquecer que vários grupos espíritas, principalmente os anglo-saxões, não admitem as doutrinas reencarnacionistas. É perfeitamente possível haver um Espiritismo que não faça uso da hipótese da reencarnação. Por outro lado, muitas pessoas e, principalmente os grupos espíritas, creem que muitas religiões, principalmente as orientais, defendem a hipótese da reencarnação. Hinduísmo e Buddhismo são duas das principais religiões às quais são atribuídas a ideia reencarnacionista. É um de nossos propósitos neste trabalho mostrar o quanto tal afirmação se distancia da verdade. Procuraremos mostrar como o Buddhismo, em particular, vê a posição reencarnacionista, bem como o pós-morte e as provas que usualmente são levantadas para se defender uma suposta vida além-túmulo.

Em primeiro lugar devemos estar extremamente atentos diante de uma ideia tão polêmica. É preciso estarmos conscientes, antes de tudo, de que não sabemos o que acontece após a morte, pois não podemos, de fato, experienciar, no presente, algo do futuro. Podemos tecer hipóteses, juntar fenômenos e fatos, mas nunca podemos ter absoluta certeza de nada a respeito do futuro, pelo simples fato de que ele ainda não aconteceu.

Neste sentido, todas as afirmações e “fatos” que tentam provar a reencarnação, ou seja, a possibilidade do indivíduo humano, enquanto tal, encarnar-se diversas vezes na Terra ou em outros planetas, podem ser explicadas de outras maneiras. Um fato em si nada explica e o mesmo conjunto de fatos pode ser explicado segundo concepções muito diferentes e até contraditórias. A reencarnação é, antes de mais nada, uma questão de crença.

Com relação à morte estamos diante de um mistério, um desconhecido. Quando morreremos? Como? O que acontecerá depois? São perguntas sem solução definitiva porque não passíveis de experienciação neste momento. E talvez a posição mais sábia a tomar seja a de conceber a morte como um momento da experiência humana de confronto com o desconhecido, de passagem do conhecido para o desconhecido.

O desconhecido é sempre ansiógeno para a maioria das pessoas e, portanto, vão surgir opiniões diversas no sentido de diminuir a ansiedade. Cada qual poderá defender uma teoria que explique o que acontecerá no futuro, principalmente se estiver de acordo com suas próprias esperanças e anseios futuros. Mas seja como for, o presente é o único “lugar” de conhecimento real, e, sendo assim, o futuro está para além das fronteiras do conhecimento.

Essa, então, seria a posição principal da tradição buddhista, a posição realista, posição firmada no momento presente. E tal posição – sem muitas especulações e conflito de opiniões – é aquela da maioria na tradição buddhista. “O passado já se foi, o futuro ainda não veio, vivendo no presente, sabemos que este é o melhor momento”. Este é um verso repetido inúmeras vezes por todos os buddhistas, o suficiente para nos lembrar que quaisquer especulações futuristas, não passam disso, especulações.

Mas, supondo que queiramos avançar um pouco mais. Entremearmos ligeiramente no campo da especulação. Haveria algum princípio em que pudéssemos nos basear para clarear pelo menos uma parte das dúvidas que nos afligem sobre o futuro? Haveriam alguns princípios que, lançando luzes sobre o assunto, pudessem pelo menos nos mostrar o que não pode ser? Haveriam teorias que pudessem explicar igualmente bem ou melhor, os fatos nos quais se apoiam os reencarnacionistas?

Em primeiro lugar, antes de saber o que acontece após a morte, devemos perguntar o que morre? E, de outro lado, o que é a vida? Se não definimos o que vive não saberemos o que morre. E se não sabemos o que morre não saberemos o que pode ocorrer após este momento. De certa forma, partimos do pressuposto de que algo continua e as divergências de opiniões surgem no tocante ao que continua e não só o que acontece.

É um engano pensar que a tradição buddhista ensina a reencarnação, pois suas concepções sobre a constituição humana são bastante diferentes das concepções espíritas, e, se algumas palavras puderam ser traduzidas de forma semelhante, isto não deve nos levar a concluir que consistem de dois ensinamentos idênticos. A mesma palavra pode ser usada em contextos muito diferentes, como bem sabem aqueles que lidam no campo filosófico, podendo mesmo significar duas coisas radicalmente divergentes e contraditórias.

A reencarnação pode até mesmo aparecer algumas vezes no Oriente como uma linha de pensamento popular, típica do povo, que espera por uma perpetuação de seu ego, em condições muito semelhantes com as da Terra. No Oriente, é uma crença simplista, popular, própria para aqueles que conhecem pouco. E, mesmo assim, ocorre num contexto que não permite igualá-la às concepções espíritas. A ideia de reencarnação, mesmo no sentido popular indiano, é diferente da idéia que se tem no Ocidente.

Mas irão nos perguntar: Por que, então, a maioria dos livros sobre Buddhismo em português se encontram abarrotados com a palavra reencarnação? Não são só os espíritas e os desinformados que afirmam que o Buddhismo prega a reencarnação, mas, por vezes, os próprios buddhistas em seus livros e palestras!

Há dois motivos para tanto: os erros que se devem às traduções ocidentais e ao desconhecimento do sentido desta palavra por parte dos orientais que a usam. Vejamos cada uma delas.

Quando um povo entra pela primeira vez em contato com uma outra cultura e conjunto de idéias, sua tendência inicial é interpretá-las segundo suas próprias concepções. Há inúmeros casos exemplares. Nas primeiras décadas que se seguiram à entrada do Buddhismo na China, houve uma forte tendência em interpretar suas doutrinas segundo as teorias taoistas e confucianas vigentes na época. Isto deu origem mesmo a um tipo especial de Buddhismo, chamado Buddhismo Ko-i. Muitas décadas se passaram até que fosse interpretado corretamente. O mesmo ocorreu ao Cristianismo quando entrou no território japonês e foi assimilado ao panteão de deuses xintoístas. Ou às hilariantes traduções iniciais do I Ching nas línguas ocidentais quando foram interpretadas segundo as doutrinas católicas.

O Buddhismo, assim como o Hinduísmo, começou a ser estudado no Ocidente justamente na época em que o Espiritismo estava em seu auge, ou seja, entre o fim do século passado e o começo deste. A tendência predominante foi a de tentar encaixar o complexo sistema filosófico e doutrinal buddhista dentro dos limites estreitos do pensamento ocidental, principalmente nas filosofias mais exóticas. Nas primeiras décadas, e mesmo até hoje em muitos meios, o Buddhismo nunca foi encarado seriamente, mas apenas como um capricho de estudiosos desocupados ou exotismos de hippies à procura de “experiências transcendentais”. Uma tradição de 25 séculos, que vitalizou um quarto do planeta, fez surgir civilizações, produziu algumas das maiores mentes no campo da filosofia, arte e ciências, ficou entregue, durante muito tempo no Ocidente, às mãos de filósofos iniciantes e curiosos deslumbrados. Não admira que até hoje, e com muito maior razão, no ambiente brasileiro, se confunda Buddhismo com os rapazes dos Hare Krishna vendendo incenso nas praças, com monges flutuando nas nuvens, e com doutrinas de aniquilação do indivíduo e desprezo pelo mundo. Não é à toa que se pense que o Nirvana é a extinção individual no “Todo Cósmico”, que o Buddha era um japonês sorridente com uma barriga gorda, ou que o Buddhismo seja uma doutrina niilista que ensine a reencarnação.

Assim, a palavra patisandhi, literalmente reconexão, e punabbhava, literalmente existência renovada, passaram a ser traduzidas como reencarnação, uma tentativa de compreender uma ideia através de um outro tipo de pensamento, qual seja, o espírita ocidental. Deve-se notar que na literatura mundial há muito que se usa a palavra renascimento e não reencarnação, como no inglês rebirth (e não reincarnation) ou no francês renaissance (e não reincarnation). O Brasil é um dos únicos países, como em muitos outros aspectos, a não acompanhar o desenvolvimento neste campo de estudo. Isto é tanto mais esclarecedor considerando o fato do Brasil ser o maior país espírita do mundo, e daí um certo interesse em mostrar a veracidade das teses espíritas a partir de sua comprovação em outras culturas. E é claro que tais noções espíritas estão difundidas por todos os lados, inclusive nos próprios tradutores de livros, os quais, no Brasil, em geral são pagos pelas editoras para traduzirem qualquer coisa, tendo do Buddhismo tanto conhecimento como de qualquer outro assunto. Daí a qualidade da grande parte das traduções existentes. Some-se a isso o fato de que boa parte destes tradutores ou escritores de livros têm manifestamente tendências e afiliações espíritas e ocultistas, e torna-se fácil ver o interesse partidário e tendencioso de suas traduções.

Chegamos, então, ao segundo motivo para se acreditar que o Buddhismo ensine a reencarnação: Os próprios buddhistas orientais parecem ensiná-la! Aqui devemos distinguir dois casos. O primeiro é aquele que acabamos de mencionar. O oriental fala rebirth e o tradutor traduz reencarnação. O segundo caso ocorre quando o próprio oriental se utiliza da palavra reencarnação. Este é um caso que se deve exclusivamente ao desconhecimento, da parte do oriental, do que esta palavra realmente significa no Ocidente. Isto é tanto mais freqüente entre os lamas tibetanos que, inocentes e confiantes nas qualidades do tradutor, e recentemente chegados do Oriente, simplesmente ignoram que suas palavras sejam ouvidas de uma forma totalmente diferente daquela em que é pronunciada.

Vemos, segundo a explicação acima, a importância fundamental de se conhecer o todo de uma doutrina ao invés de se ater a palavras isoladas, fora de contexto, fragmentadas. Uma palavra, como um fato em si, não significa nada, mas somente conforme o contexto na qual aparece.

Dissemos anteriormente que o Buddhismo adota uma concepção da constituição do homem muito diferente daquela defendida pelo Espiritismo. Podemos perguntar: O que vive, segundo a tradição buddhista? Para o Buddhismo, bem como para todas as doutrinas espirituais antigas da humanidade, o ser humano pode ser considerado sob três aspectos: corporal, mental ou psíquico e espiritual.

O corpo e a psiquê são dimensões condicionadas, limitadas e impermanentes. Condicionadas porque para existirem dependem de uma série de outros fatores alheios a elas. Corpo e psiquê dependem de uma interrelação e interação para manterem a sua existência. Esta condicionalidade, aliás, é uma característica de todas as coisas existentes. Para existir é necessário impor-se limites, ou seja, cercar-se de condições, as quais, ao mesmo tempo em que limitam, também propiciam a existência. O corpo, entre outras condições, define-se no tempo e no espaço. Já a psiquê, embora livre do espaço, limita-se pelo tempo, ou melhor ainda, pela duração. É preciso notar que a duração, como qualquer outra condição, é sempre temporária, sujeita ao surgimento e ao declínio. E toda a doutrina espírita refere-se unicamente ao mundo condicionado, sujeito às condições mais grosseiras da existência universal, como o tempo e o espaço. Evolução só pode ocorrer no tempo. E a reencarnação espírita é um mero continuar sujeito a condições limitativas, mesmo que diferentes. Pouco importa reencarnar-se na Terra ou em outros planetas, é sempre uma referência espacial de que se trata.

Para além daquilo que é condicionado deve haver necessariamente algo que não o seja de forma alguma, pois a limitação não é uma afirmação no sentido filosófico, mas privação, porque cerceia e impõe limites ao ilimitado. “Tudo o que é criado é impermanente”, e somente o que não nasce, ou seja, não se limita ou delimita, pode ser, de fato, livre e eterno.

Mesmo os Himalaias, em toda a sua grandeza, não conseguirão vencer o tempo e sua característica corrosiva. O Espiritismo, com suas doutrinas evolucionistas e totalmente relacionadas somente com o tempo, não poderá deixar de sofrer a mesma corrosão. Só o que está para além do tempo, onde evolução alguma pode fazer sentido, pode, de fato, perpetuar-se e ser chamado de eterno.

Ora, desde que tudo aquilo que é condicionado necessariamente tem um fim quando as condições que o sustentam deixam de existir, então, é claro que tanto o corpo como a psiquê têm necessariamente um fim. Na concepção buddhista o homem existe, enquanto tal, na medida em que é composto destes vários elementos. A ocasião da morte marca a separação destes elementos para além da qual já não se pode mais falar de homem. O que é corpo volta ao ambiente corporal, ao pó. O que é psiquê volta ao ambiente psíquico. E o que é eterno não pode deixar de sê-lo e portanto volta ao eterno, ou seja ao que sempre foi, é e sempre será. A ideia de que uma alma indestrutível, essencial e independente das condições reencarne-se sucessivamente em diferentes corpos, cada vida mais evoluída que a anterior, que é o que constitui a tese espírita, é, assim, totalmente estranha às concepções buddhistas, e na verdade, a todas as concepções tradicionais da espiritualidade antiga.

E o que renasce então? O que renasce é o impulso criado pelas ações volitivas, os desejos que criam tendências e reações. Toda ação intencional carrega em si suas próprias conseqüências, as quais passam a ser novas causas para futuras ações. O renascimento é independente da morte física do indivíduo humano. Nossas ações intencionais renascem a cada momento, levando-nos a mundos de experiência de acordo com o conteúdo da ação. Como diz o importante mestre buddhista de meditação S.N. Goenka: “…Todos os infernos e céus existem dentro do corpo. Quando você se sente miserável você passa para um reino infernal, e quando você se sente abençoado você passa para os planos celestiais dos devas ou Brahmâs. Todos estão dentro de você”. Somente a falta de conhecimento dos ocidentais tornou possível interpretar este tipo de renascimento como sendo uma reencarnação no sentido mais literal da palavra.

Para a tradição buddhista, a doutrina do renascimento tem a ver com responsabilidade universal, pois somos influenciados por todas as correntes de ações ocasionadas em torno de nós no presente e no passado, bem como por nossas ações influenciamos os seres à nossa volta e os que nascerão no futuro. Todos os seres estão intimamente relacionados através de suas ações. Para o buddhista, o mundo é como uma árvore, onde os indivíduos são os galhos. Vários galhos nascem de um só galho, não sendo nem idênticos ao galho original, nem totalmente diferentes, mas todos estão interligados.

Daí que, para o caminhante buddhista, o fundamental na via espiritual não é evoluir para um mundo melhor, o qual, mesmo melhor, será ainda condicionado, limitado e impermanente, mas sintonizar-se com a Verdade, com aquilo que sempre é, com aquilo que é incondicionado pelas circunstâncias. E a cada momento que as nossas capacidades e ações se expressam harmonicamente com o que sempre é, elas se tornam semelhantes à Verdade, reflexos do Intemporal e Ilimitado no mundo das condições.

© Ricardo Sasaki

Este é um capítulo de um livro que foi escrito pelo autor e apresentado originariamente num Congresso de Tanatologia em Belo Horizonte e publicado nos Anais do Primeiro Congresso Brasileiro de Tanatologia e Bioética, realizado em Belo Horizonte/MG, em 2003.