Pamela Garrison, colíder da Campanha das Pessoas Pobres da Virgínia Ocidental, dirige-se aos participantes da conferência sobre “o árduo trabalho de ser pobre”, sob o olhar atento do Bispo William J. Barber II e da Bispa Yvette Flunder. Fotografia de Timothy Cahill, cortesia da Escola de Teologia de Yale.

Por Venerável Bhikkhu Bodhi

Como o buddhismo deve se posicionar diante das questões cruciais que hoje afligem este país e o nosso mundo? O Venerável Bhikkhu Bodhi propõe a necessidade de uma “teologia pública buddhista” — uma lente ética por meio da qual mestres e pensadores buddhistas possam avaliar as questões públicas à luz dos ensinamentos do Buddha.

Em abril passado, tive o privilégio de participar da Conferência de 2026 sobre Teologia Pública e Políticas Públicas, realizada na Escola de Teologia de Yale, em New Haven, Connecticut. Estive presente como participante, não como palestrante, acompanhado pela Venerável Hong Hui, uma das bhikkhunis (monjas buddhistas) do Mosteiro Chuang Yen, onde resido. A conferência, com duração de três dias, foi convocada pelo Bispo William J. Barber II, diretor fundador do Centro de Teologia Pública e Políticas Públicas de Yale e professor da Escola de Teologia da universidade. O Bispo Barber é um dos líderes morais mais notáveis de nosso tempo: presidente da organização Repairers of the Breach [Reparadores de Brechas] e copresidente da Poor People’s Campaign [Campanha das Pessoas Pobres], um movimento de “fusão moral” que enfrenta os problemas interligados da pobreza, do racismo, da economia de guerra, da devastação climática e do nacionalismo religioso.

A conferência ofereceu uma rica variedade de mesas-redondas sobre as questões críticas que nosso país enfrenta às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, em novembro. Os painéis se concentraram, sobretudo, no impacto que as políticas atuais exercem sobre os mais pobres, os imigrantes sem documentação e outras comunidades vulneráveis. Embora os organizadores estivessem enraizados na tradição cristã, poucos painelistas abordaram seus temas sob um ângulo estritamente teológico. A maioria adotou uma perspectiva ampla, tratando dos assuntos propostos a partir de um ponto de vista crítico, moral e espiritual. Entre os palestrantes estavam Ruth Ben-Ghiat, especialista em líderes autoritários e “homens fortes”; Nancy MacLean, historiadora cuja obra se dedica à ascensão da oligarquia antidemocrática; Pam Garrison, filha de mineiro de carvão e colíder da Campanha das Pessoas Pobres da Virgínia Ocidental; Ezra Levin, cofundador da organização de base Indivisible; e Sloan Meek, ativista pelos direitos das pessoas com deficiência — cega e com paralisia cerebral —, que proferiu um discurso comovente sobre a urgência de proteger o Medicaid. A conferência contou ainda com uma banda de gospel com influências de jazz e um coral feminino que incendiaram o auditório com apresentações musicais inspiradoras.

Os painelistas destacaram as crescentes ameaças à nossa democracia, representadas por uma facção radical empenhada em impor ao país um regime autoritário, livre de quaisquer freios institucionais. Mas também nos lembraram da nossa própria capacidade de promover uma revolução pacífica em defesa dos valores democráticos. O Bispo Barber enfatizou que nossa tarefa não se resume à resistência: trata-se de avançar com um programa positivo de “amar, avançar, juntos”. Movidos pelo amor – amor por todas as pessoas, inclusive aquelas a quem nos opomos -, devemos avançar, dando passos corajosos rumo a uma sociedade mais justa e inclusiva. E devemos fazê-lo juntos, agindo em solidariedade uns com os outros para construir uma ordem social e política inspirada no amor incondicional.

Rumo a uma “dharmologia” pública

Ao deixar a conferência, vi-me às voltas com perguntas inquietantes sobre o papel que o buddhismo deveria desempenhar neste país e no mundo atual. Fiquei agradavelmente surpreso ao constatar que a Venerável Hong Hui, uma bhikkhuni taiwanesa de formação buddhista chinesa tradicional, partilhava das mesmas inquietações. Ao término da conferência, ela me disse: “Por que nós, buddhistas, não realizamos conferências como esta? Estamos tão presos às nossas rotinas restritas de rituais, estudos textuais e retiros de silêncio que acabamos por não responder às questões cruciais que as pessoas enfrentam no seu dia a dia.”

É certo que o buddhismo gerou um rico legado de ativismo social, hoje conhecido como “buddhismo socialmente engajado”. No entanto, esse engajamento tem se manifestado, em grande parte, sob a forma de projetos ativistas específicos, motivados por ideais buddhistas: buddhistas contra o racismo; Dharma ecológico; buddhistas atuando pela paz; defesa buddhista dos direitos dos imigrantes, dos direitos das mulheres ou dos direitos das pessoas gays e trans; na Ásia, críticas ao sistema de castas e oposição a regimes militares. Para conferir uma espinha dorsal mais sólida ao buddhismo engajado, o que se faz necessário é um esforço deliberado no sentido de construir uma “teologia pública buddhista” — um arcabouço ético buddhista coerente, convincente e doutrinariamente fundamentado, que possa ser utilizado para examinar as questões vitais do nosso tempo. Embora o buddhismo não tenha um theos — um Deus pessoal — como centro ético, o Dharma cumpre uma função análoga, servindo como fonte objetiva, universal e inabalável de preceitos e valores éticos que incidem sobre a vida humana e impõem exigências à nossa conduta. Uma teologia buddhista nesse sentido (ou “dharmologia”) forneceria um critério para avaliar, a partir de uma perspectiva dhármica, as leis, políticas e programas governamentais que determinam a qualidade de nossa vida coletiva. Esse arcabouço ajudaria a examinar questões como políticas ambientais, relações internacionais, políticas migratórias, políticas econômicas e uma infinidade de outros temas de suma importância para a esfera pública. Ele nos ofereceria uma lente precisa — uma lente dhármica — por meio da qual poderíamos discernir suas implicações morais e espirituais.

Aqui no Ocidente, o buddhismo tem tendido a trilhar o caminho do recolhimento, e não o do engajamento comunitário ativo. Muitas pessoas adotam a prática buddhista como via de cultivo interior, por meio da meditação e da reflexão filosófica, evitando qualquer atenção às ramificações sociais mais amplas do Dharma. Outras se aproximam do buddhismo como um regime de higiene mental que oferece alívio para o estresse, a ansiedade e a dor traumática. Com demasiada frequência, dizem-nos para encarar o nosso sofrimento como sintoma de um fracasso pessoal decorrente da recusa em aceitar as coisas como são – uma perspectiva enviesada, que deixa de reconhecer que grande parte da dor que as pessoas enfrentam tem origem em sistemas sociais iníquos, e não em deficiências individuais.

Uma teologia pública buddhista crítica corrigiria essa visão distorcida ao expor o imenso sofrimento gerado por instituições opressoras, políticas parasitárias e leis injustas. Não devemos simplesmente “aceitar as coisas como são”. Precisamos advogar por mudanças fundamentais nas políticas públicas que possam trazer alívio às pessoas que sofrem com os impactos da violência estrutural. Agir para aliviar o sofrimento e promover o bem-estar dos seres sencientes implica a obrigação de confrontar e transformar os sistemas sociais mais amplos responsáveis por tanto sofrimento.

Isso significa que devemos rejeitar a crença generalizada de que o buddhismo deve se abster de questões políticas. A política carrega enormes implicações éticas que clamam por uma resposta conscienciosa. As políticas públicas determinam se o nosso orçamento priorizará bombas ou escolas; se as pessoas terão acesso à saúde ou ficarão entregues à própria sorte; se terão moradia ou viverão nas ruas; se a riqueza será distribuída de forma justa ou concentrada nas mãos de poucos privilegiados; se faremos a transição para uma economia de energia limpa ou continuaremos a extrair combustíveis fósseis. Teólogos buddhistas atuariam como vozes de consciência, avaliando políticas e leis por meio da lente ética oferecida pelos ensinamentos do Buddha. O Dharma também poderia servir como matriz para formular, ao menos em linhas gerais, os tipos de políticas capazes de dar forma a uma ordem social em consonância com os valores éticos e espirituais do buddhismo.

O soberano que governa pelo Dharma

Podemos encontrar recursos para essa teologia pública buddhista nos suttas que descrevem o lendário rājā cakkavatti, o “monarca que gira a roda”, o soberano universal que instaura um reinado de prosperidade e paz em todo o mundo (Digha Nikāya nº 26). O monarca que gira a roda é a contraparte secular do Buddha, exercendo no domínio da governança o mesmo tipo de autoridade moral que o Buddha exerce no domínio da realização espiritual. Tanto o monarca que gira a roda quanto o Buddha, segundo os textos, exercem sua autoridade com fundamento no Dharma, cada qual promovendo-o à sua maneira (Anguttara Nikāya 5:131). O Dharma é, ao mesmo tempo, o princípio objetivo de retidão que sustenta o mundo e o caminho de cultivo que conduz à transcendência do mundo. O monarca que gira a roda se apoia no Dharma em sua capacidade de sustentar o mundo para estabelecer um regime de justiça, prosperidade compartilhada e paz universal. O Buddha se apoia no Dharma em sua capacidade de transcender o mundo para conduzir os seres para fora do cativeiro do ciclo repetido de nascimento e morte.

Embora se apoiem em aspectos distintos do Dharma, o Dharma que ambos sustentam é essencialmente o mesmo, apenas aplicado a esferas diferentes. Em sua aplicação mundana, esse Dharma se traduz nas políticas e nos programas que emanam dos imperativos de justiça e compaixão. A tarefa do monarca que gira a roda, segundo os textos, é proporcionar “proteção justa a todos em seu reino”, assegurando harmonia social, prosperidade e bem-estar para todos (Anguttara Nikāya 5:133). Em sua aplicação transcendente, esse Dharma revela as verdades fundamentais que conduzem à libertação. A tarefa de um Buddha é compreender esse Dharma em sua plenitude e, em seguida, expô-lo amplamente para guiar os seres à libertação do sofrimento.

Os suttas dizem que cada rei que aspira ao status de monarca que gira a roda deve se aproximar de ascetas e brāhmanas sábios e perguntar-lhes: “O que é bom e o que é mau? O que é irrepreensível e o que é censurável? O que conduz ao dano e ao sofrimento, e o que conduz ao bem-estar e à felicidade?” (Digha Nikāya nº 26). É evidente que, nesse contexto, os reis não devem indagar apenas sobre os preceitos éticos pertinentes à esfera privada de suas vidas. Devem, antes, perguntar sobre os tipos de políticas que precisam adotar para assegurar o bem-estar de todos em seu reino, incluindo “as aves e os animais”. Uma norma de suma importância que um monarca que gira a roda deve adotar é a de eliminar a pobreza, distribuindo a riqueza do Estado entre seus súditos. Esse princípio é especialmente relevante hoje, quando líderes abusam de seu poder para ampliar a própria riqueza em detrimento do bem comum.

Bispo Barber, a Rev.ª Dr.ª Della Owens-Barber, o Ven. Bhikkhu Bodhi e a Ven. Hong Hui

Ao nos despedirmos do Bispo Barber no encerramento da conferência, a Venerável Hong Hui e eu o convidamos a visitar o Mosteiro Chuang Yen. Ele disse que, apesar de sua agenda atribulada, tentaria encontrar tempo para nos fazer uma visita, acrescentando que queria aprender conosco “como orar profundamente”. Isso me surpreendeu, mas fiquei feliz em saber que ele estava tão aberto a aprender conosco, buddhistas.

Embora eu acredite que teólogos públicos e pastores como o Bispo Barber possam aprender com os buddhistas a aprofundar sua vida interior por meio da prática contemplativa, também creio que nós, buddhistas, podemos aprender com pensadores e ativistas cristãos progressistas a aplicar os princípios éticos de nossa fé à tarefa de construir uma sociedade mais justa, mais solidária e mais inclusiva. Devemos, sobretudo, seguir o exemplo de nossos amigos cristãos na defesa de nossos irmãos e irmãs vulneráveis, tanto neste país quanto ao redor do mundo. Seguindo o exemplo deles, devemos estar prontos para nos levantar contra líderes políticos ambiciosos empenhados em conquistar um poder irrestrito e para defender as pessoas vulneráveis que enfrentam a marginalização, a opressão e a violência. Nossa diretriz deve ser a nobre tarefa de criar uma sociedade baseada no respeito mútuo, um mundo no qual todos possam florescer.

O Ven. Bhikkhu Bodhi é o fundador e presidente do conselho da Buddhist Global Relief.

Publicado em 9 de junho de 2026

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