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por Ann Lovelock

É usual, durante retiros de meditação, haver períodos alternados de práticas sentada e andando. Isto permite ao praticante manter a concentração e, ao mesmo tempo, alongar as pernas e afrouxar as tensões corporais criadas durante a prática sentada. Visto que as instruções não são tão detalhadas, a impressão que se tem às vezes é de que a meditação andando não é tão importante quanto a sentada, mas ela pode ser recompensadora. O objeto de meditação neste tipo de prática é a própria postura, assim como o movimento e o contato dos pés com o chão; a atenção é dirigida para os pés. Darei, então, algumas explicações sobre como desenvolver a prática, e falarei sobre a postura. Há três estágios: em pé, andando e voltando-se. Se a prática for feita em local fechado, é usual cruzar a sala de meditação e, então, dar meia volta. Se a prática for feita em lugar aberto, caberá decidir o ponto de onde você deverá voltar.

Em pé

Fique em pé, de modo relaxado, com o corpo voltado para o interior da sala, mas próximo da parede de onde vai começar a caminhada. Tome alguns minutos para ajustar a postura, mantendo-se o tempo todo consciente do seu corpo. Os pés devem estar pousados sobre o chão, paralelos um ao outro e ligeiramente afastados; os braços devem estar frouxamente estendidos ao lado do corpo. Antes de mais nada, ajuste o seu equilíbrio a fim de certificar-se de que ele está igualmente distribuído em ambos os pés; em seguida, certifique-se do balanceamento entre o calcanhar e as solas de cada pé: o ponto de equilíbrio deve situar-se no arco dos pés. A seguir, movimente os músculos das coxas a fim de que as rótulas dos joelhos girem ligeiramente para fora. O segredo para manter uma boa postura em pé reside na posição dos quadris.

Enquanto estiver mantendo o correto equilíbrio sobre os pés, ajuste cuidadosamente a pélvis a fim de que a espinha dorsal fique ereta, evitando a projeção do estômago e a inclinação dos ombros. A maior parte das pessoas conseguirá isso apenas movendo ligeiramente os quadris para baixo. Certifique-se de relaxar toda a tensão nos ombros, deixando para isso os braços estendidos ao longo do corpo, as mãos relaxadas e as palmas voltadas para dentro. Aproveite para ‘criar’ espaço entre os lóbulos das orelhas e os ombros; ajuste a sua cabeça, se isso for necessário, a fim de que ela não penda para trás nem seu queixo se projete para a frente. Se você fez todos os ajustes corretos não deverá haver nenhuma tensão em seu corpo. Mantenha-se nesta posição por algum tempo a fim de acostumar-se à postura, procurando ‘senti-la’. Você provavelmente terá que checar de tempos em tempos toda a sua postura, dos pés à cabeça, pois, por vezes, cada vez que faz um ajustamento em alguma parte do corpo algo se desajeita em outra parte.

Andando

Nesta meditação, a mente deve estar totalmente absorvida no que está se passando. Antes de qualquer movimento, portanto, conscientize-se da intenção de andar e do pé que dará o primeiro passo. Transfira todo o seu peso para o pé que permanecerá pousado no chão. A seguir, levante o calcanhar e a sola do outro pé, conscientizando-se da perda de contato com o solo. Mantenha-se consciente do movimento do pé no ar enquanto ele estiver sendo levantado, mova-o para a frente e comece a abaixá-lo de volta ao chão. A boa prática da caminhada dita que o calcanhar é a primeira parte do pé que deve ser colocada no chão, seguido da sola dos pés – no entanto, qualquer que seja a parte do pé com a qual você primeiro toque o solo, esteja consciente do momento em que se dá este contato e, então, de todo o pé pousando sobre o solo.

Com ambos os pés pousados no chão, redistribua o seu peso igualmente entre os dois pés, antes de repetir o processo com o outro pé. Continue a caminhar através da sala, fazendo da posição dos pés o objeto de concentração, seja quando estiver levantado ou quando estiver em contato com o chão. Ao alcançar o outro lado da sala, permaneça conscientemente parado em pé, durante um breve momento, antes de voltar-se para o outro lado. O olhar não deve nunca estar fixado nos pés ou vagar pela sala, uma vez que isso irá distrair sua atenção. Apenas mantenha os olhos abaixados e focados em algum ponto cerca de um metro à sua frente. Essa mesma indicação vale também para a postura em pé. Se o seu olhar vagar ou se você mantiver os olhos fechados, você correrá o risco de perder o equilíbrio e cair!

Voltando-se

Novamente, antes de começar a se voltar, tome consciência da intenção de virar e da direção para a qual você pensa em se voltar. Eu sempre faço questão de não dar minhas costas à imagem de Buddha. O giro é executado elevando-se e pousando, com uma leve angulação, primeiro um pé e depois o outro. As passadas devem ser muito pequenas e os pés devem erguer-se no máximo até cinco centímetros do chão. Quando tiver completado o giro, e seu corpo estiver voltado para a direção oposta, tome alguns minutos para permanecer parado em pé e conscientizar-se de sua postura, ajustando o que for necessário. Quando comecei a praticar a meditação andando, me pareceram fascinantes – tanto quanto às outras pessoas – esse processo tão detalhista de caminhar e todos os pequenos movimentos requeridos ao andar. Mas este não é o objetivo do exercício; e deixar a mente vagar por todo o seu corpo, enquanto caminha, não ajuda a manter a concentração necessária para que o retiro seja realmente benéfico.

Caminhada ‘Rápida’

Você perceberá que, ao concentrar-se no movimento dos pés, em um nível tão alto de detalhamento, automaticamente você caminhará muito lentamente. A caminhada ‘rápida’ é usualmente adotada se você estiver andando ao ar livre – e só é ‘rápida’ em comparação com o método descrito acima. Ela é ainda lenta comparada à caminhada normal. De qualquer modo, erga ou abaixe os pés como descrito acima; a diferença é que você deverá manter-se consciente apenas do pé que estiver em movimento, o esquerdo ou o direito.

Não há, nas escrituras, instruções específicas sobre como praticar a meditação andando, mas o Buddha refere-se a ela em várias ocasiões. Para certos tipos de pessoas – está dito nos comentários -, a meditação andando pode se tornar sua prática regular. Está dito, também, que manter a atenção correta nela é um caminho que leva à Iluminação.

© Ann Lovelock

© tradução do inglês por Newton Sodré para a Comunidade Buddhista Nalanda, 2006

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Ann Lovelock
Nascida em East Midlands, UK, Ann Riddell estudou Farmácia na De Monfort University, Leicester, trabalhando como farmacêutica hospitalar até sua aposentadoria em 2001. Casou-se com Yann Lovelock em 1961 e se tornou buddhista em 1966. Foi discípula do Ven. Dr. Rewata Dhamma, sendo a tesoureira do Birmingham Buddhist Vihara Trust desde 1982. Em 2003 tomou ordenação temporária como monja Theravada sob o nome de Irmã Supabha. Seu interesse na técnica de Alexander a fez compreender a importância da correta postura de meditação, escrevendo então as orientações para sentar e andar, as quais apareceram no Vihara’s Lotus Review #s 2 & 4.

2 COMMENTS

  1. Muito bom texto. Há muito tempo tenho dúvidas de como deve ser praticada esta forma de meditação, já que as poucas vezes que a pratiquei não tive uma orientação tão detalhada, e o texto sanou bem os pontos que eu tinha dúvida, que justamente eram sobre a postura e a forma de caminhar.

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