por Ven. Bhikkhu Bodhi

Caros amigos no Dharma,

Existe uma crença difundida entre os buddhistas de que um bom praticante buddhista deve permanecer indiferente à política e, por isso, quando chega a época das eleições, muitos buddhistas decidem ficar de fora. Votar, pensam eles, é tomar partido, e um “verdadeiro buddhista” permanece “neutro”, totalmente desapegado das preocupações mundanas.

Tal crença envolve uma compreensão equivocada do Dharma. Embora seja verdade que a política pode ser tóxica, ela se torna tóxica quando as emoções em relação aos candidatos e às questões levam a decisões irracionais e ações perturbadoras. Não é a política que está em falta, mas a maneira como as pessoas se envolvem com ela. Apesar de todas as suas armadilhas, a política é uma esfera vital da atividade humana, na qual se travam disputas morais cruciais. Ela é a expressão concreta de nossa vida comunitária e nacional, e os valores buddhistas devem desempenhar um papel fundamental na orientação de nossas decisões sobre o voto.

Numa democracia, votar é tanto um ato de responsabilidade cívica quanto uma expressão de nossas convicções morais. Em nossa era secular, poderíamos até chamar o voto de “um ato sagrado”. Milhares de pessoas em países ao redor do mundo, incluindo os Estados Unidos, sacrificaram suas vidas para conquistar o direito de voto. Em muitos países hoje, onde a votação é inexistente ou uma farsa vazia, cidadãos oprimidos lutam para obter esse precioso direito e para fazer com que seu voto represente sua vontade genuína.

Não esqueçamos que aqui nos Estados Unidos foi por meio da ação política que a escravidão foi abolida, que o trabalho infantil foi proibido, que mulheres e minorias conquistaram o direito de voto. Foi o voto que garantiu a redução da poluição ambiental e a oferta de proteções e serviços sociais básicos. Benefícios que hoje damos como garantidos, como as escolas públicas, o Social Security, o Medicare e o Medicaid, não foram entregues em bandeja por nossos políticos. Pelo contrário, tivemos de conquistá-los por meio de protestos e petições — e votando em candidatos que os implementassem. Se formos negligentes, poderemos facilmente perder esses benefícios.

Também foi por meio de eleições que os Estados Unidos abandonaram suas responsabilidades globais, cortaram a assistência a comunidades desesperadas ao redor do mundo, retiraram-se dos compromissos climáticos globais, enviaram agentes do ICE às ruas de nossas cidades para capturar, deter e deportar pessoas vulneráveis e lançaram guerras agressivas que mataram milhares de pessoas e abalaram as economias do mundo. Nossas decisões importam; nossos votos realmente fazem diferença em nossas próprias vidas e na vida das pessoas ao redor de todo o mundo.

O voto é nossa voz, a maneira silenciosa como dizemos o que consideramos certo. É um ato pelo qual, como simples indivíduos, assumimos a responsabilidade pelo todo. Com nosso voto, falamos em nome de toda a nação, falamos pelas gerações futuras e, de fato — dado o papel imenso que os Estados Unidos desempenha no palco mundial — pelo destino futuro da humanidade. Não podemos abandonar essa responsabilidade por causa de um ideal imaginário de desapego santo. Fazê-lo seria fugir de nosso dever moral.

Em apenas duas semanas, no dia 3 de novembro, os Estados Unidos realizarão uma eleição extremamente importante. Os resultados dessa eleição terão impacto na vida de todos neste país e provavelmente repercutirão pelo planeta nas próximas décadas. A eleição é crítica demais para que qualquer pessoa com senso de responsabilidade humana fique de fora. Se verdadeiramente damos valor à amorosidade, à amizade benevolente e à compaixão, devemos expressar esses ideais no simples ato de votar.

Embora o dia oficial da eleição seja terça-feira, 3 de novembro [nos Estados Unidos], muitos estados oferecem a possibilidade de votação antecipada e votação por correio. As regras que regem o processo de votação variam de estado para estado. Para saber como, quando e onde votar, você pode clicar aqui. Certifique-se de aceitar apenas informações precisas provenientes de fontes confiáveis, e não o tipo de desinformação que circula em sites maliciosos e páginas mal intencionadas do Facebook.

Neste ano, todos os assentos da Câmara dos Representantes estão em disputa, assim como 35 assentos no Senado. Também haverá disputas para cargos estaduais e locais. Embora possam parecer menos importantes em comparação com as eleições para o Congresso, devemos dar a elas nossa atenção também.

Em quem devemos votar? Embora a BGR (Buddhist Global Relief – uma das maiores instituições buddhistas de assistência social) não endosse nenhum candidato, trazer as pessoas certas ao poder é profundamente relevante para a missão da BGR. A equipe da BGR considera a compaixão, a justiça e a solidariedade com os outros como nossos valores fundamentais. Afirmamos a dignidade intrínseca de cada pessoa como a inspiração por trás de nosso trabalho. Consideramos esses valores não meramente como ideais abstratos, mas como guias para a ação, e as políticas adotadas por nossos representantes eleitos têm um impacto poderoso sobre nossa capacidade de transformar esses valores em ação. Essas políticas determinam se pessoas famintas receberão alimento, se crianças em regiões remotas terão a chance de frequentar a escola, se pessoas doentes terão acesso a cuidados médicos, se nossa organização terá os recursos para oferecer assistência aos mais necessitados.

Embora formulados há séculos, os ensinamentos do Buddha oferecem princípios claros que podem nos ajudar a tomar a decisão certa ao entrarmos na cabine de votação. Um texto útil a esse respeito é o Sutta aos Kalamas (Kalama Sutta). Nesse ensinamento, quando os kalamas perguntam ao Buddha qual caminho espiritual devem seguir, ele não lhes diz para seguir o caminho do    próprio Buddha. Em vez disso, diz-lhes que deixem de lado seus preconceitos, preferências emocionais e crenças críticas, e que considerem com cuidado se um ensinamento encoraja a ganância, a violência, a avareza e a mentira, ou se, em vez disso, promove valores como a não-violência, a generosidade, a honestidade e a veracidade.

Com esse ensinamento como nosso ponto de referência, podemos avaliar os candidatos que disputam o cargo e investigar suas qualidades pessoais. Não devemos nos deixar enganar por seu charme, suas habilidades oratórias, riqueza e fama. Em vez disso, devemos examinar sua integridade moral e considerar cuidadosamente suas propostas. Devemos levar em conta não apenas se suas propostas nos beneficiarão pessoalmente, mas se suas ideias nascem de uma perspectiva ampla e compassiva que enfrenta os grandes problemas que nosso país enfrenta e os desafios que hoje assolam a comunidade global.

Não espere que nenhum candidato seja perfeito. Não espere que nenhuma proposta política seja perfeita. Praticamente qualquer candidato estará sujeito a ter falhas pessoais. Qualquer política ou projeto de lei proposto estará sujeito a ter deficiências. Em vez disso, devemos comparar as alternativas e então determinar qual candidato parece mais propenso a contribuir para a paz e a prosperidade compartilhada, a defender as normas democráticas de governança e a unificar e inspirar o país em torno de ideais dignos, em vez de incitar à violência e à divisão com o objetivo de ampliar seu poder e riqueza pessoais.

Uma vez tomadas suas decisões, não fique simplesmente quieto em casa. Saia para votar e também incentive seus familiares, amigos e vizinhos com direito a voto a votarem. E lembre-se: antes de poder votar, você precisa se registrar como eleitor. Para saber como se registrar online, de forma simples e eficiente, você pode clicar aqui.

Com metta,

Ven. Bhikkhu Bodhi

Presidente, BGR

© Traduzido pelo Centro de Estudos Buddhistas Nalanda da correspondência oficial da BGR

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