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~por Gil Fronsdal ~

A Verdade da Causa do Sofrimento

A palavra dukkha, que traduzimos como sofrimento, é intimamente conectada à palavra sukha, que significa felicidade. Ambas têm a mesma raiz: – kha, que significa, etimologicamente, o centro de uma roda. O du – significa o “mau”, enquanto su significar “bom”.  Portanto etimologicamente, dukkha significa “uma roda fora de equilíbrio” ou “uma roda descentralizada”.

A Segunda Nobre Verdade diz que o que nos torna descentralizados, que causa nosso sofrimento, é a ânsia. Em pāḷi, a palavra é taṇḥa, que significa literalmente sede. É traduzida às vezes como desejo, mas isto tende a sugerir que todos os desejos sejam um problema. O que causa o sofrimento é o desejo (ou a aversão) que é impelido, compulsivo. Ânsia significa ambos: ser impelido para experiências e objetos, assim como ser compelido a afastá-los para longe. Sendo a ânsia sutil ou densa, se não estivermos vigilantes, não estaremos cientes de como ela contribui ao nosso sofrimento.

A razão parcial pela qual o Buddhismo põe um foco enorme sobre o momento presente é que o sofrimento ocorre somente no momento atual. Além, a ânsia, a causa daquele que sofre, ocorre somente no momento presente. Mesmo quando as condições para o sofrimento ocorreram no passado, o pensamento ou a memória daquelas condições estão ocorrendo no presente. Nós enfatizamos o momento presente em nossa prática como uma tentativa de compreender claramente como ânsias funcionam no momento presente. No momento presente podemos encontrar ambas: a causa e o alívio de nosso sofrimento.

Assim, simplesmente, o momento presente é o lugar onde compreenderemos as Quatro Nobres Verdades. Enquanto praticamos, primeiro tentamos nos estabilizar no momento presente. Nós nos acomodamos em nosso corpo, escutamos sons ou sentimos as sensações da respiração. Uma vez que estamos no momento presente, podemos começar a explorar nossa experiência: para o que somos compelidos, de que nos afastamos, como criamos nosso sofrimento.

 

A Verdade da Cessação do Sofrimento

A Terceira Nobre Verdade expressa a possibilidade de libertação, da cessação do sofrimento. Quando vemos nosso sofrimento e compreendemos claramente como surge a ânsia, nós sabemos que a liberdade do sofrimento é possível quando a ânsia é liberada.

A palavra nibbāna ou nirvāṇa se refere à libertação em relação ao sofrimento. Enquanto a tradição Theravāda descreve às vezes o nibbāna como uma grande felicidade ou paz, ele é mais frequentemente definido como resultado da ausência completa de apego ou de ânsia. Uma razão para esta definição negativa é que o nibbāna é tão radicalmente diferente do que pode ser descrito com palavras que o melhor é não tentar. Outra razão é para que o objetivo da prática buddhista não seja obscurecido por especulações metafísicas sobre a natureza do objetivo.

Ainda há outra razão para a definição negativa do nibbāna: evitar confundi-lo com todos os estados de ser específicos. Tornamo-nos facilmente apegados aos estados tais como a calma, a paz, a alegria, a claridade e radiantes de luz que surgem às vezes durante a prática da meditação, mas que não é seu objetivo. Nós podemos acreditar que precisamos alcançá-los se quisermos compreender a Terceira Nobre Verdade. Mas se nos lembrarmos que o não apego é o meio de se libertar então estaremos menos inclinados a nos apegar a qualquer estado. Não se apegue a sua felicidade. Não se apegue a sua tristeza. Não se apegue a nenhuma realização.

 

A Verdade Sobre o Caminho para a Cessação do Sofrimento

Deixar todos nossos apegos não é fácil. Desenvolver a compreensão, a compaixão, e a observação vigilante para ver bem o suficiente para abandonar nosso sofrimento é bastante difícil. A Quarta Nobre Verdade é pragmática; descreve, em oito etapas, o caminho que conduz à liberação em relação ao sofrimento. O Nobre Caminho Óctuplo dá-nos as etapas que nos ajudam a criar as circunstâncias que tornam a maturidade espiritual possível. Eles são:

1. Compreensão Correta (Visão Correta)

2. Pensamento Correto (Intenção Correta)

3. Fala Correta

4. Ação Correta

5. Meio de Vida Correto

6. Esforço Correto

7. Vigilância Correta

8. Concentração Correta

Essa lista é ensinada às vezes sequencialmente. O praticante as desenvolve em ordem, primeiramente esclarecendo sua compreensão e intenção a fim permanecer fora das estradas tangenciais ao caminho simples das Quatro Nobres Verdades. Então, ajustando seu comportamento no mundo de modo que possa sustentar o desenvolvimento interior do Esforço Correto, da Vigilância Correta e da Concentração Correta. Nesta abordagem sequencial, o praticante não completa cada etapa antes de seguir para a seguinte. Mas sim, a prática segue um caminho espiral na qual se retorna continuamente ao começo, cada vez com maior profundidade.

Às vezes a lista não é ensinada como um caminho para ser desenvolvido sequencialmente. As oito etapas são apresentadas como oito aspectos do caminho, que são desenvolvidos juntos. Apoiam-se mutuamente, cada um nutrindo o outro. A lista é abrangente; mostra-nos como podemos trazer a completa extensão de nossas vidas para o caminho da prática. Nós podemos ver isto quando esses oito são categorizados com as divisões do corpo, da fala e da mente. Ação e Meio de Subsistência Corretos pertencem às nossas atividades corporais, Fala Correta as verbais, e o restante concerne à mente e ao coração.

O Caminho Óctuplo é dividido algumas vezes nas três categorias de ética, de práticas internas e de introspecção (sīla, samādhi e paññā). Neste caso, a Fala Correta, a Ação Correta, e o Meio de Subsistência Correto, como aspectos de ética, são ensinados como o começo do caminho. Depois do desenvolvimento da ética, as práticas internas do esforço, da vigilância e da concentração conduzem ao desenvolvimento da introspecção ou da sabedoria.

O Caminho Óctuplo oferece um mundo rico da prática. Estudar e familiarizar-se com todos os oito vale o tempo e o esforço. Dos Oito, a tradição vipassana enfatiza particularmente a observação vigilante. Em parte, isto é porque quando a prática da observação vigilante é meticulosa, os outros aspectos do Caminho Óctuplo seguem em seu rastro.

A observação vigilante é igualmente o elemento chave para a transformação da libertação. A prática da observação vigilante é o veículo para realizar as Quatro Nobres Verdades. Na prática da observação vigilante, aprendemos como colocar a atenção no momento presente de modo que quando o sofrimento surge, possamos observá-lo. Podemos nos interessar pelo sofrimento em vez de fugir dele. Podemos aprender como estar confortáveis com o sofrimento, de modo a não agirmos inapropriadamente por causa de nosso desconforto. Então podemos começar a compreender suas raízes e abandonar os apegos.

Todos os ensinamentos do Buddha são elaborações das Quatro Nobres Verdades. Ao compreender este punhado das folhas, uma vida espiritual pode ser direta e prática. Todos nós podemos vivenciar a enorme alegria e paz que vêm da libertação dos apegos.

 

tradução: Patricia Gurgel Segrillo
revisão: Ricardo Sasaki
em acordo com o Autor

© 2011 Gil Fronsdal

Nota: “Tocar o Coração do Assunto” é uma compilação de ensaios editados sobre a prática buddhista da observação vigilante. Muitos destes capítulos começaram como palestras dadas aos grupos de meditação da noite de segunda-feira ou da manhã de domingo do Insight Meditation Center em Redwood City, Califórnia. Alguns dos capítulos foram escritos especificamente para a publicação em jornais, em revistas ou em boletins de notícias buddhistas. Este livro é uma oferenda do Dhamma.


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