As Lições da Gratidão

On 05/02/2013 by nalanda

.

Thanissaro Bhikkhu

Thanissaro Bhikkhu

~ Ven. Thanissaro Bhikkhu ~

Estas duas pessoas são difíceis de serem encontradas no mundo. Quais duas? Aquela que é a primeira a fazer uma gentileza, e aquela que é grata e agradecida por uma gentileza que foi feita”. — AN 2:118

Ao dizer que as pessoas gentis e agradecidos são raras, o Buddha não está simplesmente afirmando uma dura verdade sobre a raça humana. Ele está alertando a valorizarmos essas pessoas quando você as encontra, e – mais importante – mostrando como você mesmo pode se tornar uma pessoa rara.

Bondade e gratidão são virtudes que você pode cultivar, mas elas têm que ser cultivadas juntas. Cada uma precisa da outra para ser verdadeira – o que se torna óbvio quando você pensa sobre as três coisas mais prováveis para ter sincera gratidão:

1) Você realmente se beneficiou a partir das ações de outra pessoa.

2) Você confia nos motivos por trás dessas ações.

3) Você percebe que a outra pessoa teve que deixar de fazer o que fazia para fornecer esse benefício.

Pontos 1 e 2 são lições de que a gratidão ensina bondade: Se você quiser ser realmente bondoso, você tem que prover real benefício – ninguém quer receber ajuda que não “ajuda” de verdade – e você tem que fornecer esse benefício de uma forma que mostre respeito e empatia para com as necessidades da outra pessoa. Ninguém gosta de receber um presente que foi dado com motivos calculados, ou de improviso, tampouco de maneira desdenhosa.

Os pontos dois e três são lições de que a bondade nos ensina a sermos gratos. Somente se você foi bondoso com alguém você aceitará a ideia de que os outros podem ser bondosos para com você. Ao mesmo tempo, se você for bondoso com outra pessoa, você saberá o esforço envolvido. Os impulsos de bondade muitas vezes têm que combater os impulsos não gentis em nossos corações, portanto não é sempre fácil ser útil. Às vezes implica grande sacrifício – um sacrifício somente possível quando você confia que o recipiente fará bom uso de sua ajuda. Assim, quando você é o recebedor de um sacrifício, você percebe que incorreu em uma dívida, uma obrigação de reembolsar a confiança da outra pessoa. Esse é o motivo para o Buddha sempre discutir a gratidão como uma resposta à bondade, e não compará-la com a apreciação em geral. Ela é um tipo especial de apreciação que inspira uma resposta mais exigente. A diferença aqui é melhor ilustrada por duas passagens nas quais o Buddha usa a imagem do transporte. A primeira passagem concerne a apreciação de um tipo geral:

Então o homem, tendo apanhado erva, galhos, ramos e folhas, e tendo-os amarrado para fazer uma jangada, atravessaria para a segurança da margem distante graças à jangada, tendo feito um esforço com as suas mãos e os seus pés. Tendo atravessado para a outra margem, ele poderia pensar: ‘Que útil esta jangada foi para mim! Porque foi graças a esta jangada, fazendo um esforço com as minhas mãos e os meus pés, que eu atravessei para a segurança da outra margem. Por que não vou eu para onde quiser, levando-a sobre a minha cabeça ou carregando-a nas costas?’ O que acham, monges? Será que o homem, ao fazer isso, estaria a fazer o que deveria ser feito com a jangada?

Não, senhor”.

E o que o homem deveria fazer para que fizesse o que deveria ser feito com a jangada? Pode ocorrer que o homem, tendo alcançado a margem distante, pensasse: ‘Quão útil essa jangada foi para mim! Pois foi em dependência dela que, com esforço das minhas mãos e pés, eu cheguei com segurança até a margem distante. Por que eu, tendo arrastado-a até a terra seca ou afundando-a na água, não vou aonde quer que eu queira?’ Fazendo assim, ele faria o que deve ser feito com a jangada”. – MN 22

A segunda passagem trata detalhadamente da gratidão:

Digo-vos, monges, há duas pessoas que não são fáceis de recompensar. Quais duas? Sua mãe e seu pai. Mesmo que você carregasse sua mãe em um ombro e seu pai no outro ombro por 100 anos, e cuidasse deles ungindo-os, massageando-os, banhando-os, esfregando seus membros, e se eles defecassem e urinassem ali mesmo [nos seus ombros], vocês não teriam com isso pago ou recompensado seus pais. Se vocês instituíssem sua mãe e pai soberanos absolutos desta grande terra, abundante nos sete tesouros, ainda assim não estariam pagando ou recompensando seus pais. Por que isso? Mãe e pai fazem muito por seus filhos. Eles se importam com eles, eles os alimentam, eles os introduzem a este mundo.

Mas, qualquer um que desperta seu pai e mãe sem fé, estabelece e os mantém na convicção; desperta seu pai e mãe sem virtudes, estabelece e os mantém na virtude; desperta pai e mãe mesquinhos, estabelece e os mantém na generosidade; desperta mãe e pai tolos, estabelece e os mantém no discernimento: desse modo alguém paga e recompensa mãe e pai”. – AN 2:32.

Em outras palavras, como mostra a primeira passagem, é perfeitamente correto apreciar os benefícios recebidos da balsa e outras comodidades, sem sentir qualquer necessidade de retribuí-los. Você cuida deles simplesmente para ter mais benefícios deles. O mesmo se aplica para pessoas e situações difíceis que lhes forçaram a desenvolver força de caráter. Você pode apreciar ter aprendido persistência ao ter que lidar com o capim-colchão em sua grama, ou equanimidade ao lidar com vizinhos insensatos, sem terem nenhum débito de gratidão para com o capim-colchão ou os vizinhos. Além do mais, eles não vão de bom grado sair de seu caminho para lhe ajudar. E se você os tomasse como modelo, você aprenderia todas as lições erradas sobre bondade: a de que simplesmente seguir seus impulsos naturais, ou ainda pior, agir com insensatez, seja o mesmo que ser bom.

Débitos de gratidão aplicam-se apenas aos pais, aos professores e a outros benfeitores que agiram com seu bem-estar em mente. Eles saíram do próprio caminho para ajudar você e ensinaram lições valiosas sobre bondade e empatia no processo. No caso da balsa, o melhor é você focar a gratidão na pessoa que lhe ensinou a construí-la. No caso do capim-colchão e dos vizinhos, foque a gratidão nas pessoas que lhe ensinaram a não ser vencido pela adversidade. Se há benefícios que você recebeu de coisas ou de situações que você não pode conectar a um agente consciente nesta existência, sinta-se grato pelo bom karma que você acumulou no passado que permitiu o aparecimento desses benefícios. E, em primeiro lugar, seja grato pelo bom karma que lhe permite receber e se beneficiar da ajuda de outras pessoas. Se você não tivesse crédito de coisas boas, elas não chegariam até você.

Como mostra a segunda passagem do Buddha, a dívida que você deve aos seus benfeitores não precisa ser retribuída olho por olho, e não deve ser dirigida apenas a eles. Agora, a dívida que você deve aos seus pais por lhe dar a luz possibilitando que você vivesse é imensa. Em algumas passagens o Buddha recomenda expressar gratidão pela compaixão deles com serviços pessoais.

Mãe e pai,

compassivos para com sua família,

são chamados

Brahma,

Os primeiros professores,

aqueles dignos de presentes

de seus filhos.

Assim, o sábio deve prestar-lhes

homenagem,

honrar

com comida e bebida

vestuário e roupa de cama

unção e banho

e lavar os seus pés.

Executando esses serviços para seus pais,

os sábios

são elogiados aqui

e depois da morte

regozijando-se no céu. – Iti 106

 

No entanto, o AN 2:32 fala que o único modo de retribuir verdadeiramente seus pais é fortalecendo-os em quatro qualidades: convicção, virtude, generosidade e discernimento. Para isso, é claro, você deve desenvolver essas qualidades em si mesmo, assim como aprender a ter uma grande sensibilidade em ser um exemplo aos seus pais. Coincidentemente, essas quatro qualidades são também as de um amigo admirável (AN 8:54), o que significa que ao retribuir aos seus pais desse modo, você se torna um tipo de pessoa que seria um bom amigo para os outros também. Você se torna uma pessoa de integridade, que – como salienta o Buddha – aprendeu da gratidão como ser não violento em todas as relações e em contribuir com um coração empático: respeitosamente, de uma forma oportuna e com a sensação de que algo de bom virá disso (MN 110; AN 5:148). Desse modo, você retribui a bondade de seus pais muitas vezes mais, permitindo que sua influência se espalhe além do pequeno círculo familiar para o vasto mundo. Ao fazer isso, você aumenta o círculo de bondade deles também.

Esse princípio também se aplica a seus professores, como o Buddha disse a seus discípulos: “Então é isso que vocês pensam de mim: ‘O Bem-Aventurado, Solidário, procurando nosso bem-estar, ensina o Dhamma por solidariedade’. Então vocês devem se treinar – harmoniosa, cordialmente e sem disputa – nas qualidades que lhes mostrei, conhecendo-as diretamente: os quatro parâmetros de referência, os quatro esforços corretos, as quatro bases do poder, as cinco faculdades, os cinco poderes, os sete fatores do despertar, o nobre caminho óctuplo”. – MN 103.

Em outras palavras, a forma de retribuir a compaixão e solidariedade de um professor em ensinar-lhe é se aplicar a aprender bem suas lições. Só assim você espalhará a boa influência dessas lições aos outros.

Em relação às dividas que você deve a si mesmo pelo seu bom karma passado, a melhor maneira de retribuí-las é usar seus benefícios como oportunidades para criar mais bom karma, e não apenas desfrutar do prazer que elas oferecem. Aqui, novamente, é importante lembrar as dificuldades que podem estar envolvidas no agir habilmente, e honrar suas intenções hábeis passadas não permitindo que sejam desperdiçadas no presente. Por exemplo, como Ajahn Lee disse uma vez, não é fácil obter uma boca humana, por isso reverencie sua boca todos os dias. Em outras palavras, seja grato por sua habilidade de comunicar-se, e use isso para falar apenas o que é oportuno, benéfico e verdadeiro. Essas são algumas das lições sobre bondade e empatia que a gratidão bem focada pode ensinar – lições que lhes ensinam como lidar com maturidade e responsabilidade no dar e receber da vida social. Sem surpresas, então, o fato de o Buddha citar a gratidão como a qualidade que define o que significa ser civilizado (AN 2:31).

Mas, bem direcionada, a gratidão pode ensinar lições que se aplicam também ao treinamento da mente. Primeiro, são as lições relacionadas à natureza da própria ação humana. A sensação de que você se beneficiou da ação de outra pessoa destaca o ponto em que a ação dá, sim, resultados; a importância que você dá aos motivos da outra pessoa em ajudá-lo enfatiza o ponto de que a qualidade da ação reside na intenção por trás dela; e a percepção de que a outra pessoa se desviou de seu caminho para lhe ajudar, destaca o sentido de que a ação não é totalmente determinada: Você se sente em dívida com as pessoas que lhe ajudaram porque você percebe a facilidade com que elas poderiam ter negado aquela ajuda, e o quão difícil a sua vida poderia ter sido se elas tivessem escolhido essa forma. Seus pais, por exemplo, não tiveram que lhe criar, ou conseguirem alguém para lhe criar, eles poderiam ter lhes abortado ou lhes deixado para morrer. Então, o fato de que você está vivo para ler isso significa que alguém escolheu, repetidamente, ajudá-lo quando você estava indefeso. Sentindo esse elemento da escolha é o que cria o sentimento de dívida.

Todos esses três pontos – a eficácia da ação, a importância da intenção e a existência de escolha – foram elementos peculiares dos ensinamentos do Buddha sobre a ação. E a ressonância emocional que a gratidão e a empatia dão a esses pontos pode ter sido a razão pela qual, quando o Buddha introduziu as linhas básicas desse ensinamento, ele incluiu tópicos ligados a estas emoções: o valor da doação e a dívida para com os pais (MN 117). Ele não poderia oferecer prova aos seus ouvintes sobre esses três pontos – o que viria apenas com sua experiência do Despertar – mas, mostrando como o seu ensinamento sobre a ação possibilitava à generosidade se tornar uma ação importante, e a gratidão ser uma emoção importante, ele ofereceu a seus ouvintes uma razão emocionalmente satisfatória para aceitar suas palavras.

A gratidão também é uma prática para o desenvolvimento das qualidades necessárias à meditação. Como o Buddha percebeu, a prática da concentração centra-se no poder da percepção. Treinar gratidão mostra quão poderosa a percepção pode ser, pois ela requer o desenvolvimento de um conjunto particular de percepções sobre a vida e o mundo. Se você percebe a ajuda como algo humilhante, então a gratidão será percebida como algo humilhante; mas se você percebe a ajuda como uma expressão de confiança – a outra pessoa não ajudaria você se não sentisse que você usaria bem a ajuda – então a gratidão será sentida como enobrecedora, um apoio à autoestima. Do mesmo modo, se você percebe a vida como uma competição, é difícil confiar nos motivos daqueles que lhe ajudam, e você se ressente da necessidade de retribuir a ajuda, como [se fosse] um fardo gratuito. Se, porém, você percebe que a bondade na vida é o resultado da cooperação, então o dar e receber da gentileza e da gratidão torna-se uma relação de troca muito mais agradável.

Similarmente, a gratidão requer atenção vigilante, no sentido original do Buddha em relação a essa palavra, ou seja, manter algo em mente. De fato, a conexão entre essas duas qualidades se estende à própria língua. No pāli, a palavra gratidão – kataññu – literalmente significa ter um senso do que foi feito. No SN 48:10, o Buddha define vigilância como “lembra-se e ser capaz de trazer à mente mesmo as coisas que foram feitas e ditas muito tempo atrás”. As instruções de nossos pais quando éramos crianças – lembrarmo-nos da bondade dos outros – estão entre as primeiras lições de atenção vigilante. À medida que desenvolvemos nosso senso de gratidão, desenvolvemos a prática de fortalecer essa qualidade da mente.

No entanto, nem todas as lições ensinadas por meio de gratidão e empatia são de um tipo reconfortante. Em vez disso, dão origem a um sentimento de saṁvega – que pode ser traduzido como desânimo ou mesmo terror – sobre como arriscada e precária a bondade do mundo pode ser. Para começar, há o fato de que você não pode escolher previamente a qual bondade você será devedor. Não há como dizer que tipo de pais você terá. Como o Buddha corretamente observa, alguns pais são mesquinhos, imorais e tolos. Não só eles são abusivos em relação a seus filhos, mas também podem não ficar alegres ou mesmo satisfeitos com o tipo de recompensa que o Buddha diz ser a melhor para eles. Eles podem exigir um nível desmedido de recompensa, envolvendo ações que são verdadeiramente prejudiciais para você, para eles mesmos e para os outros. E, no entanto, isso não cancela a dívida que você tem, pelo simples fato de que eles permitiram que você vivesse.

Provavelmente você já ouviu a passagem na qual o Buddha diz: “Um ser que não tenha sido a sua mãe em certo momento no passado é difícil de encontrar… Um ser que não tenha sido o seu pai…o seu irmão… a sua irmã…o seu filho… a sua filha… em algum momento do passado é difícil de encontrar. Como é isso? De um princípio inconcebível resulta a transmigração”.

Quando pensamos o quão difícil essas relações podem ser, não é surpresa que o Buddha não disse isso para nos fazer sentir compassivos para com todos os seres que encontramos. Ele disse isso para introduzir saṁvega:

Por muito tempo haveis experienciado estresse, experienciado dor, experienciado perda, enchendo os cemitérios – o suficiente para ficarmos desencantados com todas as coisas originadas, o suficiente para ficarmos desapegados, o suficiente para sermos libertados”. – SN 15: 14-19.

Até as dívidas de gratidão que devemos a nós próprios pelas boas ações que realizamos são suficientes para induzir uma sensação de desconforto. Sabemos que nem todas as nossas intenções passadas foram hábeis, no entanto, essas são as coisas que irão determinar as condições da nossa vida no presente e no futuro. Estamos numa situação precária – o suficiente para nos fazer querer descobrir uma saída até mesmo da rede de bondade e de gratidão que sustenta qualquer bondade que haja no mundo.

Esse desejo se torna ainda mais forte quando você permite à sua empatia se espalhar para aqueles que tiveram de fazer sacrifícios involuntários para sustentar a sua vida. Todos os dias, o Buddha aconselhava, você deve refletir sobre o fato de que a vida depende dos requisitos de alimentação, vestuário, abrigo e remédios. Muitos são os seres que têm que morrer e sofrer outras dificuldades por causa de sua necessidade dessas coisas. Ao contrário da conclusão da Quarta Sinfonia de Mahler, cordeiros não saltam alegremente para a panela para alimentá-lo. E mesmo se – quando você está na posição privilegiada de ser capaz de decidir que tipo de alimento você vai comer – você adere a uma dieta vegetariana, você ainda tem uma enorme dívida para com os agricultores e trabalhadores que tiveram de laborar sob duras condições para prover os requisitos de que você precisa.

O sentido de dívida que essas reflexões induzem vai muito além da gratidão e, certamente, não é agradável pensar sobre isso. Essa pode ser a razão de tantas pessoas tentarem negar que elas têm uma dívida de gratidão a alguém de alguma maneira. Ou porque aqueles que incentivam a contemplação da gratidão como uma fonte de felicidade tendem a reduzi-la a um sentido genérico de apreciação e contentamento – nas palavras de um escritor, “querer o que vocês têm”, “saber o que vocês têm, e são, o suficiente” – desprovido de qualquer senso de dívida. Gratidão desse tipo tende a focar em coisas, porque a gratidão a coisas é muito mais fácil do que gratidão a benfeitores. Coisas não fazem exigências. Elas não sofrem e não misturam sua bondade com abuso.

Ainda assim, não há como se esquivar do fato de que nossa própria vida depende da bondade e das dificuldades dos outros, e de que não podemos nos furtar dos débitos resultantes por meio da insensibilidade de negá-los ou desejar levianamente afastá-los. Se não os retribuímos agora, teremos que reembolsá-los — às vezes com juros altos — mais tarde, pois mesmo a morte não apaga nossas dívidas ou nos livra de voltar a incorrer em mais. Por isso, para evitar esses envolvimentos, precisamos de outra saída — uma saída que o Buddha encontrou treinando a sua mente para alcançar uma felicidade que já não precisa depender da bondade e dos sacrifícios dos outros. E embora essa felicidade forneça um escape, não é escapista. Ela salda os seus débitos de forma responsável e generosa.

Isso se dá porque a felicidade incondicional permite que você abandone os desejos e apegos através dos quais você, repetidamente, assume a identidade de um ser. Identificar a si mesmo como um ser significa achar comida – física e mental – para manter essa identidade. É por isso que, enquanto ser, você depende de uma rede de generosidade, gratidão e sacrifício. Mas quando você pode abandonar a necessidade de tal identidade, a mente não precisa mais alimentá-la. Não é mais um fardo para ninguém. Quanto ao corpo, enquanto ainda estiver vivo, aqueles que proveem às suas necessidades colhem méritos por diversas vezes pelos presentes que proveem. Isso, de fato, é uma das motivações para se atingir o despertar:

Tomaremos e praticaremos aquelas qualidades que tornam uma pessoa contemplativa… de forma que os serviços daqueles cujos mantos, alimentos, hospedagem e medicamentos nós usamos lhes tragam grande fruto e grande recompensa” — MN 39

Ao mesmo tempo, o exemplo do seu comportamento e liberdade da mente é um presente para os outros em virtude de que hes mostra que, eles também, podem se tornar livres das suas dívidas. É por isso que o Buddha disse que apenas aqueles que alcançaram o despertar total recebem o alimento de sua região sem incorrerem em dívida. Eles mesmos pagaram a sua dívida ao Buddha por terem ensinado o caminho que leva à libertação. Como ele disse, a única homenagem requerida era de que as pessoas praticassem o Dhamma em linha com o Dhamma — isto é, que desenvolvessem o desencantamento e o desapaixonamento que levam à libertação (DN 16; SN 22:39-42) —  de forma que o mundo não esteja vazio de pessoas despertas. Desse modo, alcançar a libertação total não é um ato egoísta, em vez disso, é a mais alta expressão de bondade e gratidão. Da mesma forma que com a gratidão e a benevolência, se tornar raro e único é uma oportunidade que está aberta para qualquer um com discernimento para apreciá-la e a determinação de se tornar verdadeiramente bondoso e livre da dívida.

 

Traduzido pelo Grupo de Tradução do Centro Nalanda
com a permissão do autor

© 2012 Edições Nalanda

Nota: “Cabeça & Coração” é uma coletânea de escritos do Ven. Ajahn Thanissaro, traduzidos com exclusividade pela equipe de tradução do Centro de Estudos Buddhistas Nalanda.


* Se você tem habilidades linguísticas e gostaria de traduzir e dispor suas traduções em nossa sala de estudos para que mais pessoas possam ter acesso aos ensinamentos do Dhamma, nós o/a convidamos para entrar em contato conosco. Precisamos de tradutores do espanhol, inglês, alemão e outras línguas.


Thanissaro Bhikkhu
Thanissaro Bhikkhu, também conhecido como Ajahn Geoff, nasceu em1949 e é um monge buddhista americano da Ordem Dhammayut (Dhammayutika Nikaya), da tradição das florestas da Tailândia. Atualmente é o abade do Metta Forest Monastery em San Diego. Thanissaro Bhikkhu é um prolífico autor e tradutor de muitos livros.

Blog Widget by LinkWithin
Compartilhe com seus amigos:Share on Google+0Share on Facebook25Tweet about this on Twitter0Pin on Pinterest0Email this to someone

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>